Reforma VIII

Na mesma ânsia reformadora e no mesmo destino cismático, juntaram-se a Lutero, João Calvino, Ulrico Zwinglio e Henrique VIII. Comungaram entre si igual cisão com o papado e neste traço comum desmarcaram-se de uma reforma a partir de dentro. Definiram, assim, um caminho de reforma paralelo, externo, em protesto. Ao mesmo tempo que se distanciaram de Roma, construíram toda uma doutrina heterodoxa. É aqui que se solta um grito, a última gota para não adiar nem continuar a resistir a uma reforma já tão reclamada no interior da própria Igreja. Surge, por isso, o Concílio de Trento com a pretensão de esclarecer os pontos doutrinais mais questionados e com a intenção de dar cumprimento a um plano de reaproximação.
Se ao lançarmos o olhar para o século XX nos apercebemos que o Concílio Vaticano II contou com uma pré-história no renovamento litúrgico e teológico, olhando mais atrás apercebemo-nos de algo semelhante no século XVI. Constatamos, precisamente, que também o Concílio de Trento contou com uma sólida preparação na vida e na obra de homens e mulheres, que sendo autênticos cristãos eram em si mesmos o fruto antecipado da reforma desejada. Reformados em si mesmos, foram eles a colocar em decretos conciliares o que já tinham levado à prática na vida como transparência do evangelho. Não haveria Concílio de Trento se antes não se encontrassem homens e mulheres santos, incapazes de esperar por qualquer outra ordem, senão a de Cristo, para converterem o coração. Foram eles capazes de embelezar o rosto da Igreja, tornando-a ao tempo mais desenrugada e atraente. Eles recordam-nos que em todos os tempos e em cada realidade eclesial, desde as paróquias às congregações aos movimentos, a Igreja só se renova quando ultrapassada a crise teologal ou espiritual, ou seja, quando restaurada a mística. Sem uma união autêntica com Deus é impossível a fecundidade missionária e a revitalização das estruturas. Para o nosso tempo ecoam as palavras nada casuais, no que à reforma atual diz respeito, de Karl Rahner, para quem o nosso século ou é o século dos místicos ou não será cristão.
Neste período veranil de festas cabe evocar aquela procissão viva que vemos atravessar todo o século XVI, uma ladainha de reformadores que vale a pena invocar. Nela desfilam Bartolomeu dos Mártires (Braga), Carlos Borromeu (Milão), Tomás de Vilanova (Valência), Toríbio de Mongrovejo (Lima), Roberto Belarmino (Cápua), Josafat de Kuncevicz (Polosk), Francisco de Sales (Genebra). A estes santos pastores acrescentam-se outros presbíteros e religiosos igualmente santos, que ou viram nas angústias do seu tempo um impulso para criarem outras formas de expressar a caridade cristã com a fundação de novas congregações ou escutaram a esperança de tantos e se lançaram na renovação das ordens ou congregações a que pertenciam. São eles: Filipe de Nery, Camilo de Lellis, José Calazans, João de Deus, Jerónimo Emiliano, Inácio de Loiola, Teresa de Ávila, João da Cruz, Pedro de Alcântara, João Eudes, Vicente de Paulo.
De entre toda esta cadeia de santos, será bom conhecer mais de perto aquele que calcorreou o nosso solo transmontano: Bartolomeu dos Mártires. Foi ele o rosto da reforma numa terra onde as doutrinas protestantes pouco ecoaram, mas onde a renovação era igualmente urgentíssima. Este pastor encontra-se em grande parte redescoberto e proposto a partir do trabalho de Mons. José de Castro, quando nas suas investigações para a obra sobre Portugal em Trento trouxe à luz, depois de permanecer 100 anos incógnito, o Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, promulgado a 1845, que declara a heroicidade das suas virtudes. A sua vida e obra foi depois muito estudada e difundida pelo frade dominicano Raul Rolo, a partir de quem podemos contactar com um homem de oração e austeridade de vida, um pastor de almas preocupado com a educação da juventude, um vigilante sob a formação permanente dos leigos incentivando às pregações e ao ensino da teologia, um homem generoso na atenção aos pobres e um bispo com uma presença próxima através das visitas pastorais nas quais gastava a maior parte do ano. Segundo Mons. José de Castro, o Arcebispo santo fez visita pastoral neste território da nossa Diocese em Castelo Branco, Gouveia, Mós de Moncorvo e Valverde. Dados estes que merecem, se ainda o não receberam, um cuidadoso estudo. A visita pastoral e o interesse em ir ter com os seus fiéis não resultam de uma mera indagação das heresias que pudessem existir. Em Bartolomeu dos Mártires esta atitude de saída manifesta o seu interesse por todos os fiéis que andavam dispersos e expressa a nova postura pastoral da Igreja no séc. XVI: não aguardar que venham ao seu encontro, mas sair ao encontro dos que por iliteracia religiosa ou por indiferença se encontravam distantes. O arcebispo santo define a visita pastoral como a alma de todo o ofício pastoral. E é… porque ainda hoje esta visita do pastor faz arder no coração quer dos bispos ou párocos que a fazem quer dos fiéis que a recebem a doce e reconfortante alegria de evangelizar.