Reforma XII

Este ano 2017, a terminar, trouxe-nos a oportunidade de refletir o tema da reforma na Igreja. Um tema que nos últimos anos tem sido o mote do papa Francisco para o discurso à cúria romana por ocasião do encontro de Natal. Não admira esta opção na política espiritual de Francisco uma vez que a reforma significa um novo nascimento, o natal do coração a partir da adesão ao Evangelho.
Para qualquer reflexão, como mestra da vida, contribui a ciência histórica. A história coloca-nos hoje diante do ecumenismo como a bela resposta da fé às divisões surgidas, escândalos inevitáveis. Procurar a unidade é colocar-se na senda do Espírito Santo, cuja alegria profunda será sempre a de construir a comunhão e refazer a semelhança divina brincando com as diferenças (Christian de Chergé). O que é o Natal senão isto: o jogo de Deus em resgate da comunhão com Ele, com os irmãos e com a natureza?
A 500 anos de distância da reforma protestante seria interessante estudar as formas de celebrar os diferentes centenários. A partir do século passado a possibilidade de celebrar a reforma com uma maior sensibilidade ao movimento ecuménico tornou-se uma realidade. Principalmente, para nós católicos o II Concílio do Vaticano marcou uma transformação considerável. A criação do Secretariado para a Unidade dos Cristãos e o convite às igrejas irmãs para participarem no Concílio, através dos seus observadores, sugere-nos um tato no trato entre cristãos de diferentes confissões que falhou no I Concílio do Vaticano. É importante que este tato se vá aprimorando, como se tem aprimorado. Dele depende o belo título «perita em humanidade» atribuído pelo Beato Paulo VI à Igreja. Efetivamente, se alguma vez a Igreja deixou de ser perita em humanidade, renunciou à sua identidade, porque é impossível corresponder à sua natureza evangelizadora esquecendo a competência em humanidade.
Como momentos únicos na história do ecumenismo há a registar os grupos surgidos e as conferências realizadas (Conferência Missionária Mundial de Edimburgo em 1910, Conselho Mundial das Igrejas em 1948, Conferência das Igrejas da Europa em 1989 e Conselho das Conferências Episcopais da Europa em 1997), bem como as declarações conjuntas assinadas (sobre a justificação em 1999, a carta ecuménica em 2001, aquando dos 500 anos da reforma luterana em 2016). Há, porém, para além das comissões e discussões teológicas, todo um ecumenismo nos campos de batalha e nos hospitais de campanha, em bairros de lata e em campos de refugiados. Cristãos que olham num só sentido e se entreolham como irmãos na vocação e na missão. Para além do ecumenismo no campo doutrinal, há outros campos de ecumenismo a não desvalorizar: o ecumenismo da oração, o ecumenismo de sangue, o ecumenismo da justiça, o ecumenismo da paz, o ecumenismo da caridade. No caminho para o ecumenismo da verdade estes campos já são uma verdade na procura sincera e na correspondência empenhada ao convite de Cristo e ao Seu Evangelho.