Respeito-te Oh Mar…

Daqui, da falésia, observo a imensidão que enche o espaço. Misturadas no azul do céu as gaivotas planam em liberdade absoluta, ondulam ao sabor da brisa, picam em voo rasante em caça de peixes distraídos. O pinheiro manso que me abriga e me empresta descansativa sombra, há muito que por aqui vive, dizem-me ser um jovem ancião.
Há uns anos, por mero acaso, nas voltas sem rumo que me dão gozo, descobri este lugar. Esta arriba-fóssil, frente de mar imponente, ergue-se airosa, em brancura celestial, barrando o oceano na sua implacável marcha trituradora. Sabemos que nos longincos tempos, no reino dos dinossauros, o mar andou aqui por cima, recuou, caiu no abismo, bateu contra as arribas, batalhou durante milénios e agora, presunçoso, parece querer voltar a casa. Quando para aqui venho vislumbro, umas vezes a quietude, outras o susto que se esconde por detrás das ondas de adamastor, tenebrosas.
Estamos nos inícios de Maio, o areal da Caparica, a perder de vista, entalado entre o Bugio e Cabo Espichel, prepara-se para o Verão que espreita. Antevejo a procura, as enchentes, as alegrias, as partilhas, as juras, os amores, os desencantos, as diabruras infantis, as poses de selfie, tudo projetado no magnânimo ecrã marítimo, ventre da humanidade. Acredito que todas as praias lusas estão de alindamentos, de varreduras, na caça ao azul bandeirante.
Aqui, na vertigem das alturas, instalado em camarote privilegiado, desbobino os tempos, percorro Pangeia, folheio Eurásia e Gondoana, vislumbro os inúmeros Umbigos do Mundo, pontos de choque entre aqueles colossos continentais, aterro nos actuais Continentes, nado nas enigmáticas águas de todos os mares e oceanos que hoje nos banham, e interrogo-me acerca dos mistérios escondidos debaixo daquelas impressionantes massas de água.
Por aqui vive o tempo, sinto-o, sei que apesar das alturas estou sentado em fundo de mar, a turbulência passou por aqui, a vida brotou e explodiu por estas bandas, as conchas e calhaus rolados saltam a cada pontapé, basta pensar para o êxtase se apoderar de nós, envolver nossa mente.
Fácil é prever o encanto e atração visceral que nos puxa para as praias, por si só fontes de vida e saúde, mental e física. Saber olhar, compartilhar os afagos das ondas que nos beijam, brincar com as travessuras dalgumas irrequietas águas, conhecer os fundos que nos massajam os pés, são saudáveis virtudes que o andar dos tempos aconselham. Mas é em alturas da passagem do testemunho, entre a revolta e a paz marítima, que nos devemos acautelar.
  A juventude cativa e contagia, cria inveja pela rebeldia. Custa-me, magoa-me a perca inglória e vã. Observo impotente, talvez por culpa dos crescidos que não leem o futuro, onde me incluo, o choro familiar pela partida antes de tempo.
O mar está a levar-nos os distraídos da vida: jovens cheios de solidão agarrados pela Baleia Azul e jovens, de idade e mente, que viram as costas ao perigo que espreita.
Daqui, cá do alto desta Arriba Fóssil da Caparica, paisagem protegida, olho temeroso para esta magnitude que me atrofia e enche o peito, Respeito-te Oh Mar…