A revolução tecnológica

Escrevo a crónica, às vezes, apressado envio-a desprovida de poda e, nada a fazer, a Internet num ápice levou-a ao destinatário. Lembram-se? Do tempo gasto a garatujarmos cartas, a colocar as folhas dentro do sobrescrito, a passar os lábios na parte gomada, a fechá-lo batendo fortemente o punho de modo a não enfolar ou deixar uma das pontas menos colada, a irmos aos correios, aguardar na fila, pedir o selo a fim de posteriormente o salivar de maneira a ficar bem fixado, finalizando a tarefa ao meter o envelope no marco. Ufa, ufa, levando a comparação ao desvario da velocidade qual relâmpago de uma mensagem electrónica
Eu não sou destro no manejo dos aparatos capazes de nos fornecerem uma informação em segundos, admiro-me ao contemplar a agilidade digital de meninos quase de colo, recordo o tempo em que levava a dúvida surgida no café, teimada até ao tutano nos jogos de memória – cidades, países, marcas de automóveis e tutti-quanti – só sendo dissipada após consulta de uma Enciclopédia ou Dicionário de papel.
Continuo a folhear obras de referência em papel porque à informação pretendida acrescentam comentários, juízos ou lembram afinidades ou contrastes, no entanto, tenho de reconhecer o estimável progresso de tempo recorrendo ao quase imediato servidor do pretendido.
Tenho alguns amigos doutorados em ciência informática, eles procuram explicar-me tudo quanto de pode conceber e realizar num computador sem ser de alta-potência, prefiro nada adiantar porque eles logo se transformam em adiantados mentais capazes de me assombrarem. Não tomo a iniciativa no tocante a praticar operações envolvendo as contas bancárias, riem-se de mim ao modos romanos cultos relativamente aos bárbaros, na sua opinião estou no patamar dos párias tecnológicos obrigando-me a recordar o mau uso de vibrantes e úteis equipamentos, a defesa é estéril, porém não me resta alternativa.
Lembro a crescente enxurrada de futilidades, de despautérios e de falados cortes de mangas, para lá da introdução na paisagem política novas e agressivas práticas de comunicação, Donald Trump é o rei do Twitter, outros preferem o Facebook, Google e companhia limitada, comunicar nestas redes não obriga a grandes esforços físicos, cada qual despeja à sua maneira, Trump despede, ordena, amiúde cobre-se de ridículo. Uma coisa é certa: estamos a iniciar o tempo de fazer política ao qual nenhum agente se pode subtrair, até os meus companheiros quase analfabetos criam páginas de ver, ler, escutar e não raras vezes retaliar até ao insulto alarve e cobarde. Sim, nas redes sociais pululam os cobardes incapazes de cara a cara dizerem o que escrevem.
A linguagem de sarjeta é comum em tais autoestradas de informação, a boçalidade impera, o nosso afã pelo espreita-espreita dá-lhe consistência de molde a manterem-se, os blogs não minha terrena opinião perderam espaço relativamente às restantes formas de comunicação, agora os bloguistas estão a surfar outras ondas. Alguém há 30 anos gastava dinheiro e tempo a fim de cavalgar ondas de Norte a Sul do País? Aquelas práticas apenas interessavam aos aborígenes a jovens decadentes de Malibu e adjacências. Pensávamos nós amantes de livros, da sétima arte, da nona arte – gastronomia, ainda a caça e a pesca. O filósofo Ortega y Gasset escreveu um belo livro sobre caça e touros, a caça está quase confinada aos coutos, as corridas de touros até na Catalunha sofrem os efeitos de atroz fundamentalismo. É a vida