A opinião de ...

Santas da Ladeira

Nasci em terra de Santinhos, nas fraldas do Monte de Santa Quitéria, no Felgueiras de então. Longe vão os tempos da Primeira Comunhão. Pena a inexistência de fotografia comprovativa da Santidade que, com toda a certeza, a tenra idade atestaria. Comigo vive a recordação da Tomada do Senhor, o deglutir de Hóstia Sagrada na qual os dentes não poderiam tocar. O suplicio, o sufoco terrífico da vivência, ainda hoje me acompanha.
Na família, entes íntimos, irmão sacerdote e tia freira, são sinais dos caminhos da fé que a imensa família trilhou, até hoje. Sinto, dia a dia, especial atração por santinhos e medalhinhas do sagrado, regresso ao passado por cada visão, por qualquer contacto com esses recordares vejo-me menino, saudoso da liberdade plena, do vulcão imaginário que naquela idade todos possuímos.
 
 
Hoje, refastelado na aparente saúde, gozando os tempos, interagindo com o lado mais simples do viver, dedico calibrada atenção aos andares sociais do Portugal que somos, deveres de cidadania.
Lá, naqueles tempos da ditadura, após arranque da RTP, habituei-me a um personagem vestido de branco, de boné à polícia e a condizer, ostentando várias medalhas à mistura com fitas coloridas. Este senhor aparecia algumas vezes, de tesoura em punho, cortando fitas e recebendo, por isso mesmo, estrondosas salvas de palmas.
O crescer, do corpo, da alma e do pensar, elucidaram-me que aquelas medalhas, com primazia nos apontares das câmaras televisivas, enfeitavam figura marioneta, eram pontas de cordelinhos manobradas por mandante, sentado em cadeirão, para os lados de S. Bento, o tal que amealhava ouro dos impostos enquanto o povo sobrevivia no lodo da miséria e algumas Famílias se tornavam os Donos disto Tudo.
Nos novos tempos, após Grândola Vila Morena, a caixa mágica começou por nos mostrar os autores e correligionários de Abril do Cravo, dos três ramos das Forças Armadas, desmedalhados, terrenos, livres de auréolas, iguais entre iguais, mas um, isolado, a teimar no antigamente, trajava cinzento, enfeitado de monóculo e bengalim, orgulho de poder.
 
 
São estas vaidades, de força, que se pavoneiam entre o povo, e lhes apontam , desde que gente é gente, quem pode e manda. As memórias lembram-nos o cocar de penas dos chefes índios, os enfeites dos feiticeiros tribais, as variadas togas professorais e da justiça, os aventais maçónicos, as perucas reais e da nobreza com os ridículos folhos punhos/colarinhos bem como as perucas de caracol em cacho e, cereja no topo do bolo, nos tempos de hoje, as cintilantes medalhas e torcidas coloridas que enfeitam a vestimenta de qualquer graduado chamado ao comentário televisivo.
Devido a Tancos desfilaram manequins, verdadeiras montras numismáticas, explicando o inarrável, disparando torpedos e ogivas contra a inteligência de todo um povo. Pagos a peso de ouro, respirando irresponsabilidade, eis a figura destas novas Santas da Ladeira…

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3701