Sanção Zero: A Insolência do Bom Aluno

Depois da vitória da selecção portuguesa de futebol no Euro 2016, das 5 medalhas de ouro arrebatadas pelos nossos atletas nos europeus de atletismo, da conquista do campeonato europeu de hóquei em patins, parece-me inevitável, não podendo, pois, negar as consequências da tão sublime gesta lusitana, que nada será como dantes: além dos reflexos económicos derivados do empolgante assalto ao pódio, do ânimo de quem sente as cores da bandeira, do orgulho patriótico, é por de mais evidente que os triunfos do pretérito mês de Julho têm o condão de fazer com que o mundo inteiro olhe para este pequeno país do sul da Europa com muito mais respeito.
Como não há três sem quatro, no dia 28 do referido mês, Portugal, graças ao timoneiro da famigerada “geringonça”, foi “distinguido”, contrariando, assim, as perspectivas mais pessimistas, com o “prémio” da sanção zero, atribuído por Bruxelas, num campeonato marcado pela ausência do fair-play e pelo espírito solidário entre as equipas que nele participam – o que tornou, naturalmente, a vitória mais saborosa.
Num paralelismo possível de estabelecer entre o desporto e a política, numa realidade transposta para o nosso país, não teremos dificuldade em reconhecer que muito do insucesso que nos persegue há séculos está intimamente associado ao pensar pequeno, à nossa mentalidade, à baixa auto – estima, ao complexo de inferioridade, que nos leva a pensar, qual dogma, que os outros são melhores do que nós, a baixar os braços, rendidos à ideia do fatalismo e da inevitabilidade. 
Esta quarta vitória, longe de ser obra do acaso – alguém, gracejando, dizia que se devia à onda “marcelista” (antropónimo de Marcelo Rebelo de Sousa) - só foi conseguida, precisamente porque esse grande estadista que dá pelo nome de António Costa, recusando a ideia de que Portugal é um “betinho” bem comportado, seguidista e servil, teve a coragem inédita de enfrentar e não ceder à chantagem da inexorável e tenebrosa Troika, comandada, entre outros, pelo presidente do Eurogrupo e pelo ministro das finanças alemão.
Tal como nas recentes vitórias no atletismo, no futebol e no hóquei, a atitude deste governo de enfrentar Bruxelas, de recusar a subserviência e a cultura do agachamento humilhante, de questionar, de bater o pé, de não aceitar incondicionalmente e sem reservas as ordens de quem já incumpriu - sem nunca se pôr a hipótese de lhes serem aplicadas quaisquer sanções -, faz-me sentir muito orgulhoso, como cidadão deste país.
São estas as razões que me levam a pensar que a decisão de Bruxelas de aplicar a sanção zero – se fosse de outra maneira, os portugueses não o entenderiam! -, representa não apenas o não pagamento da multa  de 360 milhões de euros (valor correspondente a 0,2% do nosso PIB) e do congelamento dos fundos estruturais em 2017, mas, simbolicamente, um forte abanão na  ortodoxia liberal, que se rege pelo pensamento único, pela escandalosa diferenciação entre os seus membros – pressupostos não aceitáveis em Democracia.