As Segadas!…

Estando, o pão, presente no quotidiano das nossas vidas, o cultivo do cereal faz parte das vivências rurais e da sustentabilidade agrícola. Hoje, muito menos que no passado, é certo. Isto, porquanto os estilos de vida e a atividade económica se alteraram profundamente. O que não retira importância ao “Pão-nosso” de cada dia, que assume relevância determinante na celebração Eucarística.
Vem isto a propósito das ceifas, ou melhor das segadas, cujas tarefas se revestiam de grande azáfama em tempos não muito distantes, evidenciavam rituais e simbologias culturais interessantes, vincadas em tradições que se perpetuaram por várias gerações. Posso dizer que, pelos menos até à minha geração, as gentes rurais viveram, intensamente, as segadas, a que os mais eruditos chamavam ceifas. Era uma atividade agrícola que mobilizava famílias, aldeias inteiras e muitos jornaleiros (segadores/ceifeiros) vindos de outras paragens, que se entregavam aquela faina, desde antes do nascer,  até depois do pôr-do-sol. Apesar do trabalho duro, o entusiasmo era transversal, em perfeita sintonia com a festa, a alegria, a música e a dança. Claro, sem esquecer as sopas, as merendas e os almoços das segadas. Mas, por vezes, o “caldo entornava-se” quando estas refeições eram transportadas para as searas, nos alforges, dos jumentos. Frequentemente, de forma inesperada, os jericos obrigavam as mulheres a grandes tormentos, principalmente quando eram atacados por moscas ou moscardos, que proliferam no tempo mais quente. Ainda hoje, não só se contam peripécias desses tempos, como se cantam as cantigas da segada. Uma riqueza musical a preservar.
De foice em punho, para muitos gadanho ou ceitoura, numa mão e “dedais de cabedal” na outra, a segada começava ao nascer do dia e só terminava após o escurecer, fazendo-se uma pequena pausa após o almoço, para dormir a sesta, à sombra de uma qualquer árvore ou parede, tendo como colchão a terra dura e seca, ou a erva de algum lameiro.
 Porém, para além dos segadores, havia sempre aqueles com dupla função, que segavam e atavam. Como os fios eram escassos, na sua substituição eram utilizadas as bancelhas de centeio, para atar. Então, os atadores juntavam duas ou três gabelas, que haviam sido compostas por manhuços. Depois de bem apertadas e artisticamente entrelaçadas nas pontas, faziam um molho. Porventura duro e bem pesado, mas que não se desatasse. É que era uma vergonha para um segador/atador desfazer-se um molho que tivesse atado. De referir que, em muitos casos, também havia aqueles que estendiam a bancelha no chão, para o atador realizar a atadura. No final do dia, juntavam-se os molhos, ou como se dizia, o pão, em mornais, ficando a aguardar a acarreja. Através da acarreja, o cereal era transportado para as eiras, onde se faziam as medas. Só, depois, se precedia à realização da malha/debulha.
De referir que a quantificação da colheita da ceifa era medida em pousadas. E cada pousada tinha quatro molhos. Por isso, era habitual ouvir-se: quantas pousadas deu esta ou aquela terra, um lavrador havia colhido, ou transportava um carro de vacas, bois, burros, ou machos. Todavia, neste contexto,  e não menos importante na orgânica funcional dos trabalhos inerentes às segadas, era a pessoa que “chegava” o vinho, ou ia buscar a água, num cântaro de barro, a uma qualquer fonte nas redondezas. Normalmente um(a) adolescente ou um adulto com menos capacidades laborais, mas cuja ação era muito requisitada.
Enfim, tanta coisa se poderia dizer e contar sobre as segadas feitas à mão. Deixo, no entanto, aqui um pequeno registo, em jeito de lembrança/recordação para uns e novidade/elucidação para outros, pois considero de primordial importância que todos saibam o quanto custava colher o pão, dando-lhe o devido valor à hora da refeição.