SEM QUALQUER RAZÃO DE QUEIXA

Numa rua estreita, íngreme, de sentido único e com os passeios em socalcos, fazendo-me lembrar a rua Serpa Pinto, em Bragança, subindo para o Castelo, há um pequeno restaurante que dá pelo nome Osteria da Dré. A maioria dos restaurantes de Arona ficam na baixa da vila, mesmo ao lado do Lago Magiore. Apesar da chuva de verão, miudinha e teimosa, estavam completamente cheios, não só no tradicionalmente exíguo espaço interior como igualmente nas esplanadas devidamente protegidas por guarda-sóis e pérgolas. Depois de uma caminhada que começava a ser incómoda e com a barriga já a dar horas, uma pequena taberna na parte alta com lugar para sentar e descansar foi um achado. Como a chuva deixara de cair não houve qualquer hesitação em pedir licença para sentar numa das mesas da esplanada sobre estrado de madeira que ocupava a totalidade do passeio, sob protetor toldo totalmente aberto. O atendimento foi estranho mas, no imediato, não provocou nenhuma reação da nossa parte. Mais tarde recordaríamos  que não era habitual entrar num espaço deste tipo e ser atendido por alguém que se encosta ao balcão como sendo um cliente e a quem o empregado de serviço serve um digestivo. Mas a vontade de encontrar um local de abrigo e que pudesse, ao mesmo tempo, reconfortar o estômago não deu espaço para tais considerações. Começando a saborear os aperitivos que se encontravam na mesa, a minha filha chamou-me a atenção para um enorme quadro que ocupava por completo a janela mesmo ao nosso lado. Rodeando uma espampanante fotografia da personagem que nos atendeu, estava uma frase provocadora e intigrante que reproduzo integralmente na sua versão original: Qui si manja male, si beve peggio, il titolare é antipatico e il camariere si tinge i capelli. Terminava dizendo literalmente que fechava nos dias de folga, sem referir quais eram e que estava aberto nos restantes. Entretanto já tínhamos feito as nossas escolhas de comida e, pelo sim, pelo não, em vez de vinho pedimos cerveja que não costuma trazer possíveis surpresas desagradáveis. Dava-nos algum conforto o facto de haver mais comensais que não aparentavam ser turistas e que portanto poderiam conhecer a casa de idas anteriores. O facto de o empregado que servia as mesas ter uma cor de cabelo levemente estranha perturbava esse conforto breve. Breve porque de repente o referido dono resolveu recolher o toldo e a água acumulada começou a escorrer pela parte lateral passando rente às minhas costas. Questionei com o olhar o autor da proeza e este respondeu-me com o seu olhar desafiador, em direção ao referido cartaz. Dizer-lhe o quê? Afinal eu não podia queixar-me de nada!Estava tudo escrito ali! Calei-me na expetativa de que pelo menos a alusão à comida fosse falsa. Era. Mas podia não ser...
Lembrei-me das eleições autárquicas e da forma como olhamos muitas vezes as promessas eleitorais. Nomeada e concretamente, em conversa com um eleitor lembrava-lhe que um dos candidatos tinha falhado redondamente uma importante promessa e ele respondeu-me que sendo verdade, isso era agora pouco importante pois o que interessava não era olhar para trás mas sim para a frente. Afinal, tantas vezes a condição humana é mesmo assim e quando nos convém acabamos por acreditar no que mais nos interessa. O chefe italiano sabe isso muito bem ou, de outra forma não exporia tão estranho cartaz. Tão bem como ele sabem-no os políticos que não se coibem de encher a nossa terra com promessas que, mais que ninguém, sabem eles que não irão, de forma alguma, realizar.