Ser optimista a dois, por todas e por todos

A Nação e o Estado portugueses vivem um período de optimismo. A Selecção de Futebol ganhou o Euro2016, a economia cresce como entre 1996-1999 e entre 2006-2009, o desemprego desce aceleradamente, Luísa Sobral e Salvador Sobral ganharam o Festival da Canção da Eurovisão, o Papa visitou Fátima e espalha esperança, há um crescendo de cristandade, mais dois portugueses foram santificados, o Benfica voltou a ser campeão mas não há acordo sobre como gastar o superavit de cinco mil milhões de euros no final de 2017 (Ricardo Cabral, 21-05-2017, BlogsPúblico) graças a: 1) uma conjuntura económica mundial favorável de retoma da economia; 2) à acção do Banco Central Europeu nos programas de compra de dívida portuguesa; 3) ao efeito do lançamento no mercado de cerca de dois mil milhões de euros em rendimentos repostos; e 4) à instabilidade dos países perimediterrânicos, que empurrou os turistas para uma fruição massiva do nosso país, aumentando as receitas fiscais oriundas deste sector. Três factores que não dominamos e que podem, de um momento para o outro, virar-se contra nós, como no passado.
Estas considerações vêm a propósito de que amanhã se completa um ano e meio sobre a tomada de posse (26/11/2015) do XXI Governo Constitucional português, o actual, um governo minoritário com base no Partido Socialista (PS), apoiado parlamentarmente pelo Partido Comunista (PCP) e pelo Bloco de Esquerda (BE e que, por isso, fracturou e continua a fracturar a Sociedade Portuguesa, tanto mais que o partido que ganhou as eleições legislativas de Setembro foi a coligação PSD/CDS, embora com apenas 36,86%% de votos contra 32,31% do PS.
O acordo entre PS e partidos à sua esquerda ocorria pela primeira vez aos 39 anos da democracia parlamentar portuguesa e constituiu uma surpresa pela interpretação constitucional que apresentava sobre o processo de constituição dos governos, baseando-os não na legitimidade eleitoral mas sim no apoio parlamentar no órgão de deliberação legislativa, a Assembleia da República.
Começava assim a aventura e a criatividade de António Costa com o optimismo de Marcelo, não só na consecução do acordo mas também no equilibrismo e inteligência táctica de que tem dado provas nas negociações com o PCP e com o BE, tornando estes partidos reféns do êxito governativo do PS.
É aqui, porém, que o brilho da estrela socialista nos pode ofuscar a todos. Perante o aumento de receitas, o PS pode ser tentado a gastar de mais na componente social, não cuidando nem de baixar a dívida nem de reduzir o défice nem ainda de aumentar o investimento público, neste novo tempo de vacas gordas. E, quando a nova crise chegar, o calculismo de Costa e a mão protectora de Marcelo podem não ser suficientes para proteger-nos de uma nova vaga de assaltos ao bolso de quem trabalha e arrecada para a protecção e, em alguns casos, irresponsabilidade de outros.