A SERPENTE TETRAPLÉGICA

A SERPENTE Segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, tetraplagia (ou quadriplegia) é a paralisia dos quatro membros.
Não os tendo, obviamente que os não poderá movimentar. Assim o título desta crónica parece resumir-se a uma evidência. Uma mera constatação. Não é essa a minha intenção. Pelo contrário o que se pretende é demonstrar que a compreensão da génese do esqueleto ofídio que permite às cobras andar sem usarem os membros (que não têm) pode trazer contributos para a possível cura da tetraplagia que se traduz na impossibilidade de uso de quem os tem.
 
Desde há vários anos que o galego Moises Mallo se tem dedicado ao estudo dos genes que condicionam e regulam a formação da coluna vertebral em geral e, em particular, da espinal medula.  Um projeto financiado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa permitiu-lhe, juntamente com a sua equipa identificar o gene que controla o desenvolvimento do tronco dos vertebrados e que explica a razão pela qual as cobras têm um esqueleto especialmente comprido.
 
O Oct4 (como se chama o gene em questão) se ativado durante mais tempo que o habitual faz com que as células estaminais continuem a diferenciarem-se em tecidos prolongando a “construção” do tronco. É o que acontece na fase de desenvolvimento dos embriões das cobras.
Segundo o investigador, o passo seguinte é identificar e escolher de entre estas, as responsáveis pela construção da medula de forma a poderem ser usadas para reparar lesões sofridas. Esse é, sem dúvida, um dos caminhos possíveis para alcançar a tecnologia para reverter as causas quer da tetraplagia como, obviamente, da paraplegia.
O projeto financiado pelo Prémio Melo e Castro da Santa Casa da Misericórdia vai ainda prolongar-se pelo ano de 2017 permitindo a continuação do estudo na expetativa de perceber se e como o Oct4 pode ser utilizado para controlar a formação de células da espinal medula e sobre a possibilidade de as regenerar quando danificadas.
Esta descoberta foi publicada na revista científica Developmental Cell. A título de curiosidade refira-se que a repercusão que existiu a nível mundial deu maior relevo à compreensão da formação do esqueleto ofídio que às portas que abriu para uma possível cura da parilisia dos membros dos outros vertebrados.