A Simbologia do Triunfo no Stade de France

Na última crónica, titulada “Ronaldo e o Microfone da CMTV”, após o jogo com a Croácia, atrevi-me, contra a corrente, sonhar com o momento triunfal, dia 10 de Julho, em Saint Denis. Uma crença “fundamentada” não em pressupostos técnico – tácticos da nossa selecção (até porque, nos jogos da fase de grupos, apresentámos um futebol pouco empolgante), mas por uma série de indícios de ordem cósmica, carregados de simbolismo, que se revelaram do princípio ao fim do torneio.
Na ausência da “nota artística”, Fernando Santos, esse mago da agregação e mestre na condução de homens, usou uma estratégia capaz de manietar os adversários (tubarões ou simples carapaus) que, durante o trajecto, foram surgindo. Em 4x3x3 ou em 4x4x2, em bloco baixo ou com as linhas subidas, a verdade é que a equipa nacional revelou competência, uma grande solidez defensiva, com espírito de entreajuda e sacrifício e, porque homens de fibra, capazes de contrariar a adversidade.
Além dos méritos do seleccionador, do profissionalismo e competência de quem representa e dirige a Federação Portuguesa de Futebol e, obviamente, do comportamento irrepreensível dos 23 atletas que honrosamente nos representaram, a vitória é inteiramente justa, só porque…
Os emigrantes portugueses em França foram fantásticos; incansáveis no apoio incondicional à equipa, à chuva e ao sol, durante quase mês e meio. Eufóricos, orgulhosos do seu país, comovidos até às lágrimas pela presença dos heróis nacionais, demonstraram ao mundo que esse estado de alma que dá pelo nome de euforia, no futebol ou em qualquer modalidade desportiva, se manifesta de forma civilizada, mesmo perante a provocação e os insultos dos compatriotas de Napoleão, que se têm por raça superior. Essa é a melhor forma de honrar a bandeira. Daí, a minha palavra de apreço para com esses dignos embaixadores da alma lusitana.
Por aquela criança portuguesa que, em cadeira de rodas, em Marcossis, esperou, pacientemente, no centro de estágio da selecção, por um autógrafo de Ronaldo.
Porque o jogador madeirense, fazendo jus à sua reconhecida grandeza humana, quebrando o rígido protocolo, satisfez o sonho dessa criança.
Pelas lágrimas de impotência, frustração e revolta derramadas pelo nosso capitão (numa imagem de rara beleza, pela tensão dramática que aquele momento provocou), porventura, no jogo mais intenso e sofrido da sua vida, que, mesmo atirado ao tapete, nunca deixou de capitanear.
Pelo momento arrepiante (de levar às lágrimas) daquela criança luso – descendente, de 10 anos, envergando a camisola das quinas, que, no final do jogo, à saída do estádio, confortou um adepto francês lavado em lágrimas, pela derrota “humilhante” às mãos dos tugas.
Pelas bandeiras agitadas no Brasil, na Austrália, no Canadá, em Timor e em todos os cantos da lusofonia.
Pelo bonito gesto dos jogadores da selecção de terem autografado a camisola do nosso pequeno João Saldanha, a lutar pela vida numa cama do hospital de S. João.
Por Fernando Santos, por ter respondido com elegância à sobranceria gaulesa e, num gesto cristão, ter manifestado o sentimento de gratidão a quem lhe fez bem, aos amigos helénicos, dirigindo-se a eles na língua de Platão.
Se estes não são motivos suficientemente fortes para se justificar a conquista do troféu, e porque a arrogância e o chauvinismo napoleónico não conseguem atribuir mérito desportivo ao adversário, podemos ter a certeza de que o mundo inteiro, incapaz de negar a função ética e pedagógica do desporto em geral, há-de fazer o favor de reconhecer que a armada portuguesa e todos quantos a ela se associaram, dentro e fora dos relvados, realçaram, pelo exemplo, a dimensão poética do futebol.