Simplesmente do Benfica…

Ali para os lados da Régua, muito perto de Mesão Frio, colada a Vila Marim, numa pequenita aldeia de nome Sedielos, dorme passado de menino. Por ali fui gente, de calções com alças cruzadas nas costas, por lá podia voar ao sabor do vento, abraçar a liberdade, beber a alegria do viver, sentir-me eterno, a imortalidade povoava-me os sonhos dos quais não queremos acordar.
As Férias Grandes, sem fim, ansiadas ao longo do ano lectivo, foram elixir de crescimento, laboratório de análise, de vivências profundas, mistura saudável com a natureza e aldeões de contos de fadas. Meus padrinhos, D. Maria e Sr. Rodrigues, viviam em Finges, bela Quinta do Douro interior. A casa, de traço brasileiro, elevada do vale, dominava os céus, furava as nuvens. As incontáveis divisões brincaram comigo ao esconde-esconde, os jardins abraçaram-me, os animais da quinta ensinaram-me, os padrinhos protegeram-me, as noites embalaram-me.
Mas foi a aldeia que me empurrou para a vida, as brincadeiras misturaram-me com a terra, poeiras e ninhos, a moçarada saudável, de traquinice que aviva a imaginação, casa da saudade que antecipa o ano seguinte, tudo foi livro de ensinamento. Aprendi, por aquelas bandas, o ingrediente base da felicidade, o simples, cruza-se amiúde connosco, só por cegueira da alma não o vemos, a troca pelo efémero é desengano de torcer a orelha.
Aqui, em cujo solo emerge a Fraga da Ermida, ninho de ave rapina, hedionda, bela e escura escultura geológica, imponente elevação, musa de Guedes de Amorim no marcante conto Aldeia das Águias, foi por aqui que em mim nasceu medo de suar.
Tudo começou quando os adultos investiram numa aventura, galgar os montes a caminho da Mesa dos Mouros. Naquela noite, magicando com o escuro do quarto, tentei imaginar um Mouro. Horrenda a figura que engendrei. A medo acompanhei a comitiva pelo raiar do dia. Após matança da sede, em Águas Santas, lá chegamos. Penedo agigantado, truncado no topo tipo mesa, buraco central rumo ao fundo, talvez prisão para presas indefesas, escavados para talheres gigantes, eis o cenário que atrofiou mente infantil. Ás estrelas e á noite mostrei os tremores que de mim se apoderaram.
Já noutra quinta da madrinha, Villa Royal, fui confrontado com a existência de aldeia próxima, queriam ir a um arraial. Neguei-me à comitiva, não quis conhecer Moura Morta.
Mais tarde, já adolescente, visita assídua de quinta de cunhado, dos Montenegros, com estofo psíquico que me aguentava, imbuído de força juvenil, embarquei na aventura, explorar os caminhos que levavam ao Caixão da Moura.
Tudo terminou, os medos e os suores nocturnos, com a vinda definitiva para Lisboa, covil dos Mouros que tanto me apoquentaram. Iria conhecer esses gigantes trunfudos, porcos, selvagens, de que tanto ouvi falar, que me povoaram a mente nas intermináveis noites de infância. Afinal essa temida raça Moura são gente como nós, boas e más. Por aqui, por Lisboa, existem umas alfaces, mas a maior parte são da cor dos tomates, vermelhos. Adoram ferozmente um Santo, o Marquês do Pombal. Esses Mouros, de contornos Adamastor, são Simplesmente do Benfica…