Sinais de Fogo

O eclético e sofredor Jorge de Sena legou-nos um romance inacabado cujo título é o desta crónica pois os sinais de repetição da tragédia iniciada em 1936, Guerra Civil de Espanha, a prenunciar o conflito mundial, na minha visão do Mundo politico de agora e a da Europa nessa época são muito parecidos. A parecença inquieta-me.
Se a minha carantonha nunca derramou louvores sorridentes à esquerda e à direita, desde há dois anos a esta parte ficou mais cerrada após a morte do meu filho mais velho, agora, só sorri pedindo desculpa pela ousadia pois quase tudo o que vê e ouve vai em sentido contrário do sorriso.
Bem sei, milhões e milhões de seres sofrem tormentos inauditos, no entanto, ao romper da aurora contemplam os seus róseos e alongados braços e da visão recebem reconfortos animando-os a não desistirem, a lutarem sem quebra de verticalidade.
O centro do romance de Sena é a estância balnear da Figueira da Foz e Lisboa, os personagens principais são espanhóis e espanholas, eles na Figueira da Foz veraneavam nas mesas do Casino, conspiravam acesamente na capital durante o dia, à noite bebiam copas escutando os galanteios das Lolas. As senhoras tentavam reparar as estrias da celulite no areal recebendo a rebentação das ondas até ao tronco, em Lisboa frequentavam as pastelarias, os armazéns e casas de modas da baixa, algumas ainda resistem.
Em pano de fundo a censura salazarista agilizava procedimentos no propósito de ocultar safardanas de toda a espécie, na restante Europa a maioria dos dirigentes políticos eleitos democraticamente procediam ao modo das avestruzes, os germes do totalitarismo cresciam de forma a os míopes se desatarem a fugir derribando obstáculos postados à sua frente.
Não podemos ceder ao terror, não podemos ceder à chantagem, não podemos ceder aos fundamentalismos sopram vozes vindas de várias direcções, sim, não podemos ceder, só que os sinais de fogo do desvario são evidentes, sendo também evidentes no tocante à falta de clarividência de quem governa o Mundo ocidental. O estrídulo desvario potencia populismos, regimes autoritários, ditatoriais.
Para lá dos cenários Trump pode ganhar as eleições americanas, Marine Le Pen as francesas, dando fios grossos a enlaçarem no tecido pelo Czar moscovita, se tal acontecer nem o oráculo de Delfos será capaz de prever o futuro.
E Portugal? É penoso escrever no que tange à situação política, os deputados (alguns) deixaram-nos patéticos exemplos de inanidade, não cumprem compromissos assumidos, não se coíbem de dar o dito por não dito, algumas sessões lembraram a balbúrdia reinante nas tabernas do Oeste americano, a palração soterrou o bom senso.
Não aponto nomes, excepto um, o de Maria Luís Albuquerque, a senhora vá se lá saber porquê em vez de se remeter ao silêncio desatou a tentar justificar o injustificável do seu desempenho ministerial, proferindo dislates cujo preço eleitoral a pagar pelo PSD vai ser elevado. A deputada nunca terá lido nenhuma obra de Jorge de Sena, muito menos a sua biografia. Ainda está a tempo, nos seus livros encontrará uma verdadeira filosofia de vida, talvez fique assustada ao sentir-se retratada nas suas virulentas epístolas a retratarem outras Marias Luís. Pode ganhar emenda, eu ficava contente.