Sindicatos e bom senso

Fui sindicalista nos alvores do 25 de Abril, lia prazenteiramente a carta de Amiens, magna-carta dos sindicalistas avessos a serem correias de transmissão dos partidos. Vendi livros editados pela BASE-FUT (Frente da União dos Trabalhadores), participei em reuniões de baio e alto-nível na esfera sindical, percebi e deplorei o acomodamento para não dizer obediência de dirigentes dos sindicatos a lugares a sol acolhedor. Um desses rapazes, agora, entre outras coisas comenta as traquibérnias futebolísticas num canal televisivo.
Cumprida a missão afastei-me sem pena ou remorso, acompanho de longe o seu papel instrumental, a sua acentuada perda de sindicalizados, à relutância dos jovens em se inscreverem, ao aparecimento de novas profissões e novas modalidades de trabalho, sem esquecer o enquistamento ideológico. Acontece, que, após um período de rufar de tambores, alguns sindicatos entraram numa espiral de reivindicações difíceis de entender e de querelas de afirmação cujo exemplo é a «guerra» na Auto Europa.
Aos dirigentes sindicais pede-se primacialmente bom senso no agendamento de lutas a travar, planeamento adequado no tocante a explicitarem racionalmente o sentido e razões do desejado através dessas mesmas lutas, e até onde podem chegar.
Não consigo perceber como os componentes de um órgão de soberania querem ser aceites na esfera da dignificação quando se arrogam no direito de praticarem a greve ao modo dos metalúrgicos, motoristas ou escriturários. Se um cidadão testemunha de um qualquer pleito não se levanta do banco da sala de audiências recebe uma descompostura do juiz, se os juízes gozam de uma série mordomias atinentes ao seu estatuto, se a torto-e-a-direito, a pretexto de futilidades levantam a voz invocando o facto de serem os liames do referido Órgão de soberania, é custoso aceitar o serem grevistas. Mal andaram os deputados legalizarem os sindicados dos juízes e magistrados, atrevo-me a escrever. Então as Forças Armadas? E o próprio governo? E o Presidente da República? Salvo erro greve do governo só no episódio grotesco de Pinheiro de Azevedo.
A força dos sindicatos difere, há os de fraca ou nula expressão, outros podem trazer o caos nos aeroportos, portos, comunicações, forças de segurança, tribunais, empresas estratégicas. A Auto Europa é uma empresa estratégica na economia portuguesa. Ao longo dos últimos vinte anos tem imperado o aludido nom senso, a Comissão de Trabalhadores essência do miolo fabril em recente plenário sentiu-se desautorizada, demitiu-se. Segundo as boas línguas o conflito tem origem numa disputa entre o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista.
 A Administração presencia o andar da carruagem, aguarda a sua paragem, ou seja: a eleição da nova Comissão de Trabalhadores, o porta-voz do principal Sindicato na contenda afirmou esperar bons resultados nas próximas reuniões. Assim seja. As suas palavras significam de duas, uma: o Partido Comunista deu ordens no sentido de refrear os ânimos face às negativas reacções, ou então terá ganho terreno na composição da futura Comissão de Trabalhadores.
Una coisa é evidente – a Auto Europa – é demasiado importante para ser colocada em perigo de vir a deslocalizar-se, ninguém sensato aceita semelhante possibilidade, no entanto, não a podemos descartar. Ou podemos? Não podemos sob pena de desencadear um furacão de elevados níveis de destruição.
A prudência é lendária no seio do Comité Central dos comunistas, seria trágico vê-la esfumar-se devido a uma briga ao modo dos galos na disputa do poleiro. A Sra. Cataria e as irmãs Mortágua participarem animadamente nessa briga não me espanta, Jerónimo de Sousa e os seus camaradas seria monumental surpresa. Umas e outros têm de impor o bom senso às suas «tropas».