A solidão também mata

 
Temos vindo assistir ao drama, cada vez mais crescente, do isolamento pessoal e social. As nossas comunidade são expressão disso mesmo. Elas assistem à sua morte: uma morte anunciada, lenta e dolorosa. Segundo os mais recentes dados, e corroborando a voz profética nesta matéria do nosso Bispo (D. José Cordeiro), tem desaparecido uma aldeia por concelho a cada ano. Quer isto dizer que, em média, morrem 150 pessoas por concelho. Porém, se juntarmos a este assustador número aqueles que migram ou emigram, teremos um cenário ainda mais aterrador. O cenário é dramático. Temos que concertar forças e estratégias que visem, pelo menos, minorar este flagelo social e humano. A perda deste capital humano é a perda da autonomia cultural, génica, social e política. As pessoas são e sempre serão o maior tesouro de toda e qualquer sociedade.
A perda contínua deste capital humano gera a solidão. Esta, no seu silêncio, tem vindo a dizimar o interior da comunidade. Cada vez mais nos sentimos sós, incompreendidos e isolados. Numa rua (ou num prédio) em que há uns anos fervilhava de vida, hoje moram uma ou duas pessoas que, ou pela debilidade física ou pelas dificuldades de comunicação, perderam espaço de relação. Sabemo-lo que somos por natureza seres voltado para a relação. Sem relação definhamos. Esta dimensão social mantém viva em nós pertença a um lugar e alimenta o coração pela mútua relação de partilha.
Estou em crer que a questão central é a questão filosófica de “espera e de esperar”. A questão fundamental está em ter alguém por quem esperar e ter alguém que nos espera. Dito de outra maneira, a razão fundante do meu ser e do sentido da minha existência assenta nesta dimensão entitaviva de ‘esperar’: ter por quem esperar e ter quem espere por mim. É a certeza de que amamos e somos amados, logo, de que não estamos sós. Assim, o acto de espera e de esperar [por alguém] surge como a epifania que sustenta a vida de cada um. É assunção do Dom! E que tem a sua expressão maior no acto mais autêntico e genuíno de amar e ser amado. Nosso Senhor dá-nos esta mesma certeza: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 18, 20). Não estamos sós! Não estamos abandonados, órfãos ou esquecidos. Ele nunca nos abandonará!
Chegar a casa (e casa é lugar e espaço de conforto, de intimidade, de amor) e vê-la fria, vazia, escura, sem ninguém à nossa espera, é o drama e a constatação cada vez mais comum nas nossas aldeias. O falecimento de um dos cônjuges ou a partida dos filhos, gera a solidão como um estado de vida. Muitas são as memórias, as histórias, os odores, encontros e os desencontros que se vão desvanecendo com a partida das nossas gentes.
Não podemos continuar indiferente e a “assobiar para o lado”. Temos que ser uma autêntica comunidade que não deixa nenhum dos seus definhar pela ausência de relação e/ou de contacto humano. A solidão mata! Não sejamos nós, hoje, também responsáveis por este vil e lento assassínio. Urge dar alento, sentido e vida a todos e a cada um daqueles que caminham pela escuridão da dor e do sofrimento. Perguntemo-nos: o que tenho eu feito para acolher aqueles que sofrem esta maleita da solidão? Qual é o meu real contributo?