Supernnany e a liberdade em educação

O «reality show» (exibição ao vivo) «Supernnany», da SIC, foi proibido por um juizo do Tribunal de Oeiras nos termos em que era exibido, com exposição de crianças e pais ao vivo, e a estação de televisão suspendeu-o, ao que diz, provisoriamente.
Poucos programas de televisão provocaram tanta polémica em Portugal. Supernnany agitou pais, professores, instituições de apoio à família, instituições de apoio à criança e, até, tribunais porque pôs a nu a desregulação e impotência da escola e de pais, na sociedade pós-democrática e pós-moderna, em lidar com as consequências da ideologia da liberdade para fazer tudo, proposta na segunda metade do Século XVIII, por Jean-Jacques Rousseau, e que está, erradamente, na base dos programas de educação e de política social da nossa democracia, a pretexto da suposta, mas nunca verificada empiricamente, bondade universal do ser humano.
O resultado deste «rouseauneanismo» educacional e social é a desregulação e, com ela, a desordem, aparecendo como necessária uma autoridade externa à família e à escola, a «supernnany», para reeducar pais e filhos. Em consequência, o programa da SIC pôs em evidência a ausência de estruturas de ajuda aos pais em dificuldades e o debate que vi, ouvi e li sobre o programa omitiu esta vertente de desresponsabilidade social perante o drama dos pais com filhos, sem saberem a quem recorrer em caso de dificuldades comportamentais e relacionais.
É verdade que as questões levantadas pelas instituições de apoio às crianças e às famílias e pelos tribunais sobre a constitucionalidade e a legalidade da exposição real das crianças são totalmente pertinentes. E são-no mesmo para os pais porque, uma vez pais daquelas crianças, ao exporem-se nos seus problemas, exporão também as crianças. Por isso, parecem-me correctas as recomendações daquelas instituições e as decisões do juízo do Tribunal de Oeiras.
Mas, se a ausência de informação sobre as estruturas a quem recorrer e a inexistência das mesmas é central no debate em torno do programa, não o é menos o debate sobre o nível adequado de liberdade em educação, na família e na escola.
 Se Rousseau nos propôs uma liberdade quase sem regras, que deu na desregulação que se está a ver, outros autores propuseram um total controlo da criança e do aluno através de condicionamentos de vária ordem, os mais radicais dos quais propunham a ausência quase total de liberdade da criança/aluno.
O conflito entre liberdade e condicionamento começou a ser resolvido a partir do início da década de 50 do Século XX pelos autores da aprendizagem social, dando origem ao movimento das teorias interaccionistas e estas ao das teorias contratualistas propondo a conciliação entre condicionamento e liberdade, mediada pelo contrato pedagógico.
Supernnany é uma tentativa de superação da liberdade exagerada com base nos pressupostos da aprendizagem social, do contratualismo e do reforço social. Apesar de pouco profunda, a acção da «educadora» foi quase sempre correcta, num contexto de exposição pública de pais e crianças, constituindo potencial elevado de ameaça para o seu futuro.