TAVARES, O ABADE DE CARVIÇAIS

Sempre me causou alguma impressão que o padre Francisco Manuel Alves fosse conhecido como o Abade de Baçal e, por equidade de tratamento, não se usasse a mesma “regra” para reconhecer o padre José Augusto Tavares, como o Abade de Carviçais.
Poderá argumentar-se que é apenas uma questão onomástica, mas, mesmo que o fosse, em boa verdade, esta questão há-de ter alguma influência na opinião pública onde, nos tempos correntes, deve assentar base a deliberação do poder público ou equiparado.
É conhecida a rocambolesca história do legado do pároco que o queria exposto em Moncorvo num espaço adequado e a ele dedicado, que o negou ao amigo Francisco Manuel Alves para enriquecer o património do recém-criado Museu Regional de Arte, Arqueologia e Numismática de Bragança (futuro Museu Abade Baçal) e acabou deixando-o à guarda do Seminário Maior de S. José de Bragança.
Também é sabida a vontade dos moncorvenses de, modificadas as condições que impelira o sacerdote aquela atitude radical, no fim da sua vida, reaverem a riquíssima coleção que, a seu tempo, ali foi reunida ou, pelo menos, terem a oportunidade de a contemplar e apreciar numa exposição temporária na nossa terra. Enquanto Presidente da Assembleia Municipal fui contactado por alguns conterrâneos para contribuir para a concretização desta vontade coletiva. Tendo tido o apoio necessário e indispensável do Presidente da Camara desloquei-me a Bragança e tive oportunidade de ser recebido pelo Reitor do Seminário o padre José Carlos Ambrósio que me transmitiu a disponibilidade total e completa daquela instituição para a disponibilizar e melhorar as condições de conservação do rico acervo que lhe foi legado em testamento. Obviamente que ficaria desde logo a faltar, não só, obter do senhor Bispo a necessária concordância mas também a colaboração do Município da Terra do Ferro para disponibilizar um espaço adequado para receber o conjunto das peças referidas e a assunção dos custos com os transportes (de vinda e regresso) bem como os seguros associados. Disto dei notícia à Câmara Municipal continuando disponível para colaborar nesta missão, na medida das minhas possibilidades.
Já lá vai quase um ano e, entretanto, nada aconteceu. Estou certo que não será por falta de vontade e até de empenho. Porque sabendo que é do interesse concelhio colaborar na conclusão da catalogação e melhoria do armazenaento de todas as peças arqueológicos também não ignoro que a unidade à volta deste tema não é perfeita havendo divergências (inexplicáveis) sobre o local de realização da exposição. Alegam alguns que a vontade expressa do Abade aponta a sede do concelho como o local onde sempre quis construir o seu museu, acrescentam outros que o lugar natural será, sem dúvida a aldeia onde viveu e se realizou como investigador desta matéria. Concordo com estes últimos já que os primeiros esquecem que o padre José Tavares ao apresentar a sua proposta à Câmara de então, teria de o fazer de uma forma credível e aceitável. Nessa altura não era razoável propor um espaço museológico fora da vila e qualquer outra proposta seria inviável. Como poder sustentar que o município financiasse, para um espaço rural, um equipamento inexistente em mais lugar nenhum do concelho? O que já não é o caso. A sede concelhia já tem vários espaços museológicos e só por má fé se pode supor que o prelado, nas circunstâncias atuais, negaria tal privilégio à terra que o acolheu que ele adotou como sua.