Têm todos de ir à festa?

O mês de Agosto de 2016 chegou ao fim. É tempo de preparar o regresso ao trabalho e os recursos para o início do ano lectivo 2016-2017.
Os emigrantes já regressaram quase todos aos países que, um dia, lhes deram guarida. Muitos dos de França nem vieram porque gastaram o seu dinheiro a apoiar a Selecção Portuguesa de Futebol. Foram extraordinários nesse apoio. Foram exuberantes nas comemorações da vitória. Os que vieram contaram peripécias, um orgulho incontido na vivência da cultura e dos valores que nos constituem como Povo, como Nação e como Estado.
Agosto é um mês de festa, sobretudo no Interior de Portugal. É o reencontro das famílias, divididas entre cá e lá, e a vivência das devoções a todos os santos e ídolos musicais. Não sei bem quem recebe mais devoção, se os santos ou se os ídolos cantantes mas os dois conjuntos fazem parte da mesma festa. O profano e o sagrado conciliam-se e a própria Virgem parece aceitar ser adorada por garotas de mini-saia, de rabo voltado para Ela.
É Agosto em Portugal mas tudo parece girar em torno dos que vêm. Têm permissão para tudo: encarecer o custo de vida, fazer o barulho que entendam até às tantas da manhã, dias seguidos, não deixar descansar ninguém, nem mesmo os que trabalham e os doentes.
Os idosos, os que trabalham e os doentes são os sacrificados de Agosto como se fossem o Prometeu grego condenado todos os anos a transportar o fogo de Hefesto. Podia haver um pouco mais de respeito pelas horas de descanso. Quinze dias seguidos a «festar» até à quatro ou cinco da manhã é demasiado violento para os que trabalham e para os doentes. Chegava-lhes bem até à meia-noite e um ou dois dias de arraial. Já para não falar da música no Eixo Atlântico (considerar aquilo música é favor!), projectada a uns 180 decibéis que darão cabo da saúde aos internados no Hospital de Bragança e criarão o inferno aos que vivem próximo.
A festa de Agosto é, para uma boa parte, uma festa de desgosto, pelos incómodos que a festa exagerada e desregrada cria, por causa da falta de bom senso de alguns organizadores das festas. A festa de uns não pode ser o mal-estar de muitos outros. Há lugar para a festa porque a festa é em Agosto, no tempo do reencontro, das férias, da amizade e do amor.
Mas não será justo obrigar a sofrer os males da festa quem dela não quer fazer parte. Só deve ir à festa quem quer. Obrigar à festa parece-me um acto muito pouco cívico e muito pouco democrático.