Tempos de provação contra a «pós-verdade»

A análise dos tempos que vivemos desafia a criatividade colocando em confronto velhos, actuais e futuros critérios de interpretação dos fenómenos políticos e sociais, às escalas global, continental, nacional, meso-nacional, regional, local, comunitária e familiar. Parafraseando Bernard Charlot (1996), tudo se processa num vai e vem constante de interacções recíprocas entre o familiar e local e o global.
 
Tudo está em ebulição e transformação, neste tempo em que o virtual-tecnológico-invisível nos retirou o controlo das nossas vidas e das relações com que as entretecemos. Paradoxalmente, e ao contrário da ideia do criador da «sociedade de interação comunicativa» (Jurgen Habermas, 1970), - que raciocinava ainda sobre elementos fácticos -, o indivíduo, do liberalismo, e o cidadão, da democracia, estão cada vez mais sós e mais sujeitos à solidão e à manipulação porque vítimas de interpretações e manipulações da realidade, à qual só têm acesso por via reconstruída por vários «outrens» que, eventualmente, também já lhe tiveram acesso na mesma forma recriada.
 O indivíduo e o cidadão não podem assim conhecer, compreender, interpretar e organizar o «id», isto é, a realidade em si mesma, mas a pós-modernidade e a pós-verdade dessa mesma realidade. Se a pós-modernidade, da segunda metade do Século XX, se revelou ainda um conceito epistemológico (relativo às origens e validade do conhecimento) pondo-nos em causa o rigor absoluto da ciência, graças às evidências científicas da Teoria de Campo (de Kurt Lewin e de Urie Bonfrenbrener) e da Teoria da Incerteza, da Física de Albert Einstein e de Werner Einsenberg, apelando antes às múltiplas interpretações e utilizações do conhecimento, o conceito de pós-verdade é um conceito de base político-social, baseado no conceito de «acção estratégica», criado por Michel Crozier e Erhard Friedberg (1994), não revelando qualquer sustentação epistemológica propriamente dita, porque construído, única e exclusivamente, nos domínios dos jogos de luta pelo poder e de dominação do espaço comunicacional, a que a manipulação e a recriação da realidade e da informação são imprescindíveis.
Neste cenário, os grandes blocos geo-políticos (Rússia, China, EUA e a emergente EU), os países, os partidos, as grandes empresas, as grandes corporações sócio-profissionais, as organizações com autonomia como, por exemplo, as câmaras municipais, a EDP, a GALP ou os CTT,  as universidades e institutos politécnicos e, até as direcções dos serviços, promovem reconstrução e recriação ideológica das realidades fácticas (os factos reais) através de comunicados oficiais ou de comentários de comentadores certificados. Criou-se assim uma sociedade de comentadores, supostos especialistas de um ou vários domínios, regra geral exprimindo ou divulgando apologeticamente «a voz do dono» ou a encomenda solicitada, através de um discurso coerente com a missão (valores) e a visão (objectivos) das organizações, sejam elas quais forem.
Separar o trigo do joio, nas diferentes recriações da realidade, é uma tarefa difícil porque todos tentam esconder os factos, recriando-os. Neste tempo de provações, temos de lutar, cada vez mais, pelo acesso aos factos para podermos pensar pela nossa cabeça.