TRUMP (Nem tudo tem de ser mau!)

Primeiro foi o Brexit e agora o Donald.
Mas antes já tinha sido Holande. Já tinha sido Orbán e quase foi Le Pen. Antes disso houve uma terceira veia que acabou não sendo via nenhuma ou talvez uma antevisão de um “terceiro” lugar onde o preto e o branco se misturam não para serem cinzento mas para deoxarem de ser o branco e o preto que eram. De repente lembrei-me de lemdário filme do final dos anos setenta: O Ovo da Serpente (“através das finas membranas pode-se discernir o réptil perfeitamente concebido”) produzido por Dino de Lorentis e dirigido por Igmar Bergman. Mutatis mutandis sejam os Estados Unidos a Alemanha de há quase cem anos e os atuais muçulmanos os judeus de então. É assustador!
 
Há contudo alguns aspetos a acautelar antes de mergulhar na cinzenta Berlim magistralmente desenhada pelo realizador sueco. É bom esclarecer, sem qualquer margem para dúvida, que o resultado das eleições americanas é legítimo (independentemente do complicado sistema de apuramento). Ilegítimas e injustificáveis são as manifestações e protestos. Não há votos bons e votos maus. Todos os votos são igualmente válidos, concordemos ou não com o desfecho. Como poderemos reclamar a vitória justa das nossas opções, quando maioritárias se não soubermos aceitar a situação inversa. Contudo, nada nos pode privar dos preocupantes sinais dos tempos e do rumo a que nos vemos conduzido. E é dessa preocupação que devemos cuidar. Essa é a primeira lição que devemos tirar da história.
E se a história se repete será estúpido que quem não concorda com o desfecho passado de situação idêntica cometa os mesmos erros que nessa altura foram detetados e apontados. Identificado o gérmen do ofídio, cabe-nos velar para que o mesmo não seja incubado. E esta é a primeira vantagem do resultado eleitoral norte-americano. Vejamos, Donald Trump elegeu-se à revelia do Partido republicano, sendo essa condição o íman polarizador de essa massa imensa, xenófoba, racista, e radical de quase metade (Clinton teve mais votso, é bom não esquecer!) do universo eleitoral americano. Ao ser eleito eleito consagrou o pólo aglutinador. Se tivesse perdido essa gente ficaria “solta” e sem qualquer liderança o que, a meu ver, a tornaria mais perigosa e, sobretudo, potencialmente incontrolável. Assim conhece-se o ovo e o ninho onde está. É mais fácil vigiá-lo.
Por outro lado tem-se assistido a um acinzentamento (a tal mistura de cores que atrás falei) da prática política onde é cada vez mais difícil encontrar diferenças evidentes e marcas distinguíveis. Os movimentos que surgem nas margens do sistea tradicional alertam para a necessidade de uma “nova” forma de atuação político-partidária. Por “nova” quero dizer inovadora porque o que é necessário, em boa verdade, é regressar à “velha” ideologia, carregada de tons bem distintos e que ofereçam verdadeiras soluções sufragáveis pelo povo eleitor e não pequenas derivações sobre “soluções” formatadas por burocratas estejam eles em Bruxelas ou na City Novaiorquina. É tempo de regressar ao futuro da política. É tempo de trazer para os próximos tempos os temas e discussões que empolgaram o pós-guerra. É essa a vantagem da história. Repetindo-se, identificámos o dejá vu  mas também as consequências e é possível saltar etapas evitando males maiores