UM DESASTRE GLOBAL

Depois da Segunda Guerra Mundial, houve espíritos suficientemente alertados para a necessidade de organizar uma ordem que não permitisse a repetição das catástrofes que por duas vezes, na mesma geração, atingiram a totalidade do globo. As circunstâncias que estamos a viver lembram não apenas a necessidade de reler os projetistas da paz, muitos sem experiência de governo, mas bons observadores dos factos, outros envolvidos nos conflitos como foi o caso de Goethe na batalha de Valmy, sendo mais impressionantes os que participaram na governação obrigada aos combates. Recentemente Santos e Silva, em Talleyrand, (2015) reproduziu as considerações que este homem, que serviu a variedade de regimes que durante a sua vida se sucederam em França, e os inerentes desastres internos e externos que provocaram, dirigiu-se ao Imperador Napoleão, a pretexto do bloqueio continental dirigido contra a Inglaterra, e suas consequências para as sociedades civis. Escreveu: “Senhor, três séculos de civilização deram à Europa um direito das gentes que, segundo um escritor ilustre, a natureza humana não saberá avaliar. Este direito é fundado sobre o princípio que as Nações devem prestar-se, na paz, o maior dos bens possível, e na guerra o menor dos males que esteja ao seu alcance. De acordo com o princípio de que a guerra não é de modo algum uma relação de homem a homem, mas de Estado a Estado, na qual os particulares não são inimigos, mas acidentalmente, não como homens, nem sequer como membros ou súbditos do Estado, mas unicamente como seus defensores, o direito das gentes, não permite que o direito da guerra e direito de conquista que dele deriva, se estenda aos cidadãos pacíficos e sem armas…” A humanização da guerra, e não especialmente o pacifismo, é o que tem importância no texto que, sabido o destinatário, não podia deixar de ter em vista o desastre humano que as campanhas napoleónicas provocaram. A época que vivemos, não obstante intervenções notáveis como as da UNICEF, e não obstante a multiplicação de normativos, ao lado da sofisticação dos meios de combater, tudo torna excessivamente evidente que a humanização regrediu. No despedir deste ano da graça de 2016, o panorama dos conflitos ao redor do globo é devastador, porque, como já foi dito (Vidal) desenvolveu-se “nos quatro cantos do mundo”. De facto, como já em 1999 Mary Kaldor, num livro que fez época intitulado New Wars and Old Wars, tornara claro a emergência de novas invenções, que viriam a encontrar síntese na vitória do fraco contra o forte, e se multiplicariam acompanhando a globalização. O modelo de Clausewitz, segundo o qual a guerra é um conflito de vontades políticas estaduais, está reduzido a parte dos factos, porque nesta data são frágeis as tentativas académicas de tentar sistematizar os fatores económicos, sociais, e políticos (Sekhar) das guerras porque as manifestações são múltiplas e surpreendentes. Há circunstância porém que não podem deixar de ser destacadas, designadamente o êxito financeiro dos complexos militares-industriais, a privatização da guerra, os milhares de crianças em combate do Cabo ao Cairo, o turbilhão muçulmano e as migrações, a pirataria marítima, mas sempre um traço comum: a crueldade gratuita, sobretudo a que coloca milhões de crianças em perigo, a violência contra as mulheres, a destruição inútil do Património Comum da Humanidade, o que leva à pregunta desesperante que se traduz em saber que papel podem, com dimensão útil, exercer as organizações humanitárias, e que audiência obtém a voz dos humanistas que pregam a paz, designadamente os líderes religiosos que não pertencem aos introdutores de valores religiosos no conceito estratégico do terrorismo que se destaca no panorama bélico do século. Talvez tenham já passado décadas de esquecimento sobre a data das promessas de paz para os novos tempos, sem dispensar a multiplicação de organizações a clamar pela urgência de proteger as vitimas, que crescem a um ritmo incontrolável. Ficaram como primeiras referências os atentados contra a sede das Nações Unidas e contra a Comissão internacional da Cruz Vermelha em Bagdade em 2003, amostra da planificada conspiração da desumanidade contra a solidariedade. A ONU anunciou que as suas agências e as agências não governamentais praticamente duplicaram o número de assistidos que oscilam entre 30 a 40 milhões de pessoas na década de 2000, sendo mais pessimista a OCHA que estima que, depois de 2011, pelo menos 60 milhões de seres humanos exigem assistência. Se a situação não for invertida, o conflito entre a crueldade e o humanismo ameaça que não seja apenas o Mediterrâneo um cemitério.