Um Fósforo…

No caminhar da vida tropeçamos nas palavras, com descuido não avisado passamos por muitas sem as olhar de frente, talvez por medo. As palavras são como as coisas, inúmeras delas não nos fazem sentido até ao dia que elas mesmo se nos impõem, gritam mesmo, agora vês porque existo?
Há um par de anos comprei a habitação onde vivo actualmente, vimos, gostamos e compramos. Lá na cave, garagem, existia e existe, uma porta que nos abre caminho para subir. Estranha porta aquela, de zinco pintado, a preço de saldo em lojas da especialidade. O empreiteiro, inchado, chamou-lhe porta corta fogo. O objecto assustou-me, ainda hoje passo por ela com um determinado respeito, coisa de lumes, de criança.
Em tempos morei num prédio, lá para os lados de Queluz, mesmo muito perto do Palácio de férias da Família Real. Do meu apartamento tinha acesso ao telhado pois que o sótão pertencia-me. Junto às telhas existia um patiozinho que me acolhia em noites de verão, expunha-me às brisas e permitia que as estrelas me mirassem. Dali, daquele ponto, tinha a sensação que o céu era meu, imaginava-me num Zigurate, entrava pelo universo dentro sem pedir licença. Tinha todo o tempo para observar os telhados, dali vemos o mundo de vários ângulos, são engraçados esses caminhos, essas estradas acima do chão. Numa daquelas noites, tínhamos um convidado engenheiro, assustado lá o convenci a vir conversar com o fresco que vem do além. Quando se sentiu confortado, já observador, confiante na afirmação que se seguiria, disparou, já viste os corta fogo que daqui se observam? Pela detalhada explicação abençoei a profissão do meu amigo, interessante aquele invento que já vem dos antepassados.
Assistimos, todos vimos, um prédio feito tocha, no centro de Paris, a crepitar, carregado de almas que se elevavam nos céus, abandonadas pela ciência e pela loucura dos homens. Já muito longe da pré-história o lume que zangado apareceu não foi por fricção e, como tal, a ciência do século vinte e um, deveria estar ali, em cada apartamento, prevendo a catástrofe da Torre do Inferno. Apartamentos sem porta corta fogo e paredes exteriores inflamáveis, eis Nero à solta, de caixa de fósforos na mão.
E agora cá no nosso Portugal, com a nossa gente, com as gentes que por nós esperam nas férias, Natal e Páscoa, que nos carregam de mimos e afagos extintos nas cidades, contra elas se virou a natureza por nós brutalizada, sem excepção. O raciocínio infantil na procura da culpa leva à pior cegueira, a do cego que não quer ver.
Está tudo inventado e dito: densidade e qualidade florestal, rasgar caminhos corta fogo, rapar as bermas, distancias do arvoredo das estradas, altura e qualidade das árvores junto às vias de comunicação, limpeza das matas, limpeza das áreas circundantes às habitações e às povoações e atenção redobrada quanto ao homem.
Em casa, comungando no sofrimento familiar das vitimas vi mil vezes a estrada da morte: bem no centro da berma rapada um poste de madeira das telecomunicações, da altura da largura da estrada. Com toda a certeza que não foi ali colocado com propósitos incendiários. Mas eu vi uma ponte, vi um passa-fogo, vi Um Fósforo…