UMA BONDADE PERFEITA (Quando os anjos se levantam)

Escrever sobre Ernesto Rodrigues é sempre um desafio enorme criador de dois tipos de emoções diversas. A primeira traduz-se no prazer de revisitar e estacar uma velha amizade como recomenda Miguel Torga. O problema está na segunda que num ápice põe a descoberto a dificuldade em opinar sobre um autor com o relevo, a cultura e a complexidade como a deste mirandelense de Torre de Dona Chama. A sua escrita aberta, labiríntica e assumidamente de várias interpretações pessoais facilmente inibe quem, como eu, tem falta de conhecimento e recursos para a analisar devida e fundamentadamente.
Acresce que me é quase impossível apreciar e examinar uma qualquer obra do douto presidente do CLEPUL olhando-a isoladamente sem levar na devida conta a sua inserção na já larga produção literária do autor, sobretudo nas que mais recentemente a precedem.
Não consigo ler o Ernesto sem ler e reler vários dos seus escritos.  
O seu último romance Uma Bondade Perfeita vem na sequência da obra anterior Passos Perdidos que, para melhor ser entendida deve ser precedida da leitura de A Queda de um Anjo de Camilo Castelo Branco sendo recomendável a recente edição, da Âncora editada e comentada, precisamente pelo Ernesto José Rodrigues, sobretudo o excelente prefácio que a completa. O texto introdutório e de análise crítica abre-nos as portas para uma visão diversa e profunda do deputado mirandês.  
Calisto Elói veste roupa nova depois dos quadros camilianos terem sido retocados e emoldurados pelo nosso conterrâneo. O Anjo liberta-se do tempo onde o escritor de S. Miguel de Seide o cristalizou e, renascido, cai, fisicamente, para lá dos Passos Perdidos em sessão recente do Parlamento Nacional. Levanta-se e sublima-se para finalizar redimido no epílogo de emocionante história de amor. Amor que em Ágata assume dimensões celestiais por merecimento de Perfeita Bondade conferindo-lhe estatuto angelical quando se sacrifica para salvação da filha, injustamente
condenada, em misteriosa e sinistra cadeia que mais não é que o contraponto de caleidoscópica casa de vidro.
O Bem e o Mal como braços opostos da balança em que o arcanjo Rafael irá pesar as almas no Juízo Final. Há nesta sequência, uma espécie de viagem de circunvalação, com regresso ao cais da partida onde entretanto se ergueu, altar religioso esperando o regresso sublime. Um anjo que nasce transmontano, cai em Lisboa, ensaia reparação final, de novo cai, anos mais tarde, redime-se, desce aos infernos mediterrânicos e sobe aos céus pela sagrada operação redentora do martírio. Três anjos ou, arrisco, um apenas que se metamorfoseia, re-encarna, cai e se levanta em mística peregrinação rumo à perfeição.
É neste porto que atraca o último romance do Ernesto. Uma Bondade Perfeita é uma história de amor, um libelo de justiça, um raio de luz, num mundo perverso, sombrio e maquiavélico. É um manifesto de esperança e confiança na bondade humana e na sua vitória sobre o mal e a perversidade. Uma bondade que ultrapassa, e não por acaso, alvitro eu, o quadro de fecho da igualmente camiliana Maria Moisés.
 
Presumo arriscadas as extrapolações que faço. Escoro-me nas palavras do autor que tem como objetivo assumido da sua obra, fornecer ao leitor diverso e variado entendimento dos seus textos, ricamente elaborados.