Vinho de Missa

Os andaluzes são conhecidos por serem desmesurados na autoestima e exagero nos elogios a si próprios. Muito boa gente afiança não serem só os andaluzes, sim todos os espanhóis incluindo os catalães independentistas ou não. Vem esta minha convicção porque num artigo publicado no El País, anunciando a entrada no mercado de um vinho de missa com denominação.
Reparem no exagero de Benito Perez Galdós, romancista espanhol nascido no século XIX, escreveu ele: “se Deus não tivesse feito Jerez, quão imperfeita seria a sua obra”. Mas já não é exagero escrevermos serem «nuestros hermanos» atentos a não deixarem escapar uma única oportunidade no tocante à expansão dos seus patrimónios imateriais e materiais, associando à defesa dos activos os negócios, marcando presença na generalidade dos concursos e adjudicações.
No caso em apreço as Bodegas Fernandez-Gaio vão lançar um vinho de missa com o selo específico do Marco de Xerez, Jerez em castelhano. Este vinho fortificado, licoroso tem um volume de vendas a nível mundial muito superior ao Porto, e os cascos onde envelhece são aproveitados para dar cor e peculiar sabor a águas de vida, o famoso e fragrante whisky Macallan é maturado nesses cascos.
O livro sagrado a Bíblia anota e refere inúmeras vezes o vinho, sendo profundo e grave o seu significado simbólico na religião Católica, cristãs e judaica como podemos intuir se lermos atentamente o milagre de Jesus operado nas bodas de Caná.
Este vinho de Xerez, denominado De Ecclesia além de obedecer a todos os requisitos normativos impostos pelo Conselho Regulador, também cumpre os determinados pelo Bispado de Jerez, e um sacerdote colaborou no desenho da etiqueta a colocar nas garrafas. O custo médio de cada uma rondará os seis a sete euros.
A Adega em causa retoma uma prática antiga de as empresas vinhateiras oferecerem os seus vinhos para a celebração da Eucaristia, só que desta feita o produto da venda do vinho será entregue à Igreja para ajudar a custear das despesas com a construção de outra Igreja para uma nova paróquia.
Obviamente, em Portugal também se comercializa «vinho de missa», desconheço se aprovado pela autoridade canónica, no entanto, a dupla criatividade da Gonzalez-Gaio bem merecia aplicação em Portugal, não por mimetismo, sim porque ninguém desconhece quanto a Igreja pode auxiliar na preservação das boas castas portuguesas destinadas à elaboração de vinhos fortificados.
Como é do conhecimento geral já se produzem vinhos kosher certificados pelos rabinos, todavia as grandes marcas não o fazem, ao contrário a conhecida Adega Tio Pepe comercializa esse vinho fino. Aqui parece existir alheamento ante a realidade das exigências dos credos religiosos, em Espanha verifica-se o contrário. A Fernandez-Gaio junta-se a outras adegas, o pormenor reside no acto generoso de ofertar a receita obtida pela venda de vinho generoso ao modo da comumente tradição ancestral nas terras cristãs.
Em Trás-os-Montes existem produtores de vinho capazes de ombrearem com os espanhóis, franceses e italianos neste pequeno universo, será que nenhuma quer acrescentar ao seu portfólio um vinho dotado de características semelhantes ao exemplo trazido à colação nesta crónica? Se surgir asseguro desde já que lhe consagrarei crónicas nos jornais e revistas onde escrevo.