Xeque Mate…

É larga a enseada. A curva, ampla e espraiada, reino do verde, local dos Deuses, onde o murmúrio da água corrente embala a mente e o longe nos mostra o espelho em que o sol e o céu se miram, esta curva obriga à contemplação, à demanda.
Quando procuro Trás-os-Montes, quando os cumes me chamam, quando o agreste me arranca a saudade, quando a aragem de lá me fustiga os sonhos, é tempo de estrada. Agora, em afronto às portagens, alternei a rota, deambulo do outro lado da serra, por Oliveira do Hospital, Seia, rumo a Celorico da Beira. A paragem obrigatória para conforto do estômago, Picanços, no Nossa Senhora da Lomba, toalhas e guardanapos de pano, donde se mira as encostas da Estrela, ali saciamos a gula salivada na viagem, é como chegar a casa.
Este novo rumo, pelos cimos, pelas Beiras que inebriam, mostra-nos o horizonte, antecipa a chegada, o jogo entre montes e vales é filme de tela, é brincar ao esconde-esconde, o tempo vive por aqui, sem pressas. Em cada curva ampara-nos o espaço, o azul ofusca em contraste com os verdes omnipresentes, o vácuo, o longe, o vale, a serra, a oferta graciosa enche os pulmões.
Pelo caminho, em velocidade da vida, dispondo do tempo, na ignorância do relógio, na ânsia do conhecimento do passado e no encontro com nós, vale a pena espreitar, subir, voltear nas ruelas de Linhares da Beira, tropeçar na Idade Média, sentir a nossa gente. Quando aqui venho, quando ouço passos na calçada, no cruzamento de grupos, sei que os Bons Dias vão soar, por aqui é sagrada a saudação, já perdida na civilização que nos afoga. O Castelo, imponente, fazendo frente aos ventos que sopram do passado a caminho do futuro, ergue-se majestoso, sempre de atalaia, daqui enxerga-se o além, o horizonte, tanto espaço asfixia.
Já no IP2, após Celorico da Beira, cumprimentando de longe Marialva e Trancoso, velhos conhecidos, sempre presentes quando por aqui rolo, acenam-me lá do alto, dizem-se contentes por termos ido visitar o primo Linhares, contemporâneos naqueles viveres de outrora, onde o granito da pedra se impõe, onde a cada esquina espreitam vestígios de defesa e ataque, onde se pressentem gritos guerreiros, onde é impossível não ouvir os cascos das bestas em fúria.
O Pocinho aproxima-se velozmente, a estrada convida e, após curva da Estação Ferroviária, de frente para a Barragem, apresenta-se do lado direito uma noiva vestida de branco, de cauda esvoaçante, em ondas, desde o topo, deslumbrante arquitectura. Ali, bendita plantação, construiu-se o “Centro de Alto Rendimento de Remo e Canoagem” que, honra lusa, ganhou o Prémio Nacional do Imobiliário 2016 na categoria de Equipamentos Colectivos.
Vou sempre mirar-me nas águas da Foz do Sabor, ver-me no verde espelho daquela curva mágica, onde o Sabor e o Douro se abraçam.
Encontrei amigo de Alfândega da Fé, informou-me que a Assombração apareceu de novo, palestrou numa Universidade de Veraneio, para jovens desejosos de subir na vida.
Contou-me que, como sempre, tentou meter medo a encouraçados, provocando a História que, com esta, lhe dará Xeque Mate…