XÔ MOSCA

 

– Há uma inundação nos peixes...

– Nos peixes!? Isso é grave... O que é que a provocou?

– Foram os restos da comida das moscas...

– ...?

Este diálogo estranho, parecendo surreal, aconteceu há pouco tempo, no Instituto Gulbenkian de Ciência.  Trago-o aqui a propósito de uma descoberta recente da investigadora Mónica Bettencour Dias publicada recentemente na prestigiadíssima revista Science. A cientista identificou e revelou a origem da infertelidade feminina sendo que esta descoberta pode dar um enorme contributo na regenração celular e no combate ao cancro.

 

Houve recentemente uma grande discussão à volta da aplicação industrial da investigação científica lusitana, queixando-se, inclusivé, um responsável do governo de então, da falta de transferência rentável para a economia, das recentes descobertas científicas. Estas declarações governamentais geraram, inclusivé, algum temor junto de quem se dedica à chamada investigação fundamental que está, por natureza, longe das aplicações industriais. É bom não esquecer que, apesar deste distanciamento, esta área está na base de muito do conhecimento mais aplicacional e tecnológico. Sem investigação fundamental a restante ciência pode sobreviver no curto prazo mas definhará com o tempo e ressentir-se-á pela falta de consolidação destes alicerces. Sei de trabalhos em curso que pretendem demonstrar por factos (como é usual no meio científico) o que é um dado empírico aceite pela comunidade. Entretanto surgem resultados como este da Mónica que demonstra que a causa de um fenómeno largamente conhecido e preocupante está no mais fundamental da ciência a que se dedica, nomeadamente em estruturas primárias das células animais: os centríolos. E o que é que isto tem a ver com o diálogo de abertura?

Os estudos da equipa foram feitos em drosófilas vulgarmente conhecidas por moscas da fruta. Como o objetivo era o entendimento dos mecanismos reprodutivos foi necessário usar, para modelos, animais cujo ciclo reprodutivo seja rápido para permitir um muito elavado número de observações em pouco tempo. Por essa razão existem e são devidamente cuidadas e alimentadas, diariamente, no instituto, milhões de moscas. A sua comida é feita à base de gluten e outros produtos que quando adicionados a água quente formam uma pasta viscosa que, se não tiver tratamento adequado, agarra-se às canalizações podendo obstruí-las. Neste verão, devido à necessidade de remodelação da sala de lavagens, houve necessidade de usar uma zona provisória que partilhava o sistema de drenagem de águas residuais com o compartimento onde estão instalados dezenas de aquários de peixes-zebra. O entupimento de uma canalização trouxe ao chão desta unidade que tem de estar limpo e esterelizado, restos da comida e pupas de moscas juntamente com grandes quantidades de água suja.

Daí o problema e a necessidade que houve de remediar rapida e eficientemente o dreno para que os peixes não fossem inundados!

Claro que o risco não era de afogamento, mas sim de contaminação, que seria fatal para as dezenas de experiências então em curso.