Armando Fernandes

 

 

Armando Vara

“Continua por favor, já que o teu exórdio foi bem promissor”. Marco Túlio Cícero
Há anos escrevi um texto relativo a Armando Vara na sequência de acções e nótulas políticas no qual trazia à colação a similitude com Macário Correia outro político mal considerado e pior amado por parte dos árbitros de elegância habituais frequentadores dos Passos Perdidos, sejam deputados, sejam jornalistas e opinadores, sejam refinados burocratas da legião da mão fria.


O 1.º de dezembro

Nesta selva de caminhos electrónicos é difícil fruir descansadamente as efemérides de grata memória porque as mesmas são diluídas na máquina trituradora dos noticiários infestados de bastardos paridos nas barcas sensacionalistas soterrando marcos da nossa história, das nossas vivências. Nada escapa à voracidade instalada, mesmo os temas ou assuntos a exigirem cuidados na análise e argumentação são tratados com os pés, pensemos nos «prós e contras» moderados por uma senhora imoderada a interromper ou a cortar os raciocínios dos opinadores. No meio da salgalhada escapa quem?


25 de Novembro 1975

Nesse dia um facho vivo de incerteza pairava sobre o País acabado de sair de um sistema político eivado de veios fascistas, entalado num corpete estreitamente vigiado pela polícia política, vivendo penosamente porque o seu secular atraso o tinha atirado para o alforge dos países subdesenvolvidos estando revolvido tal como as serpentes que mordem o próprio rabo. A situação era insustentável.


Os CTT

Todos os dias calcorreavam montes e vales levando uma sacola grávida de boas novas e triste notícia, enquanto as entregavam escutavam desabafos, lamúrias e recados disto e daquilo. Nos dias de festa, especialmente no decorrer das matanças eram obrigados a partilharem dos comeres servido, nos dias de canícula bebiam água fresca das bilhas domésticas e das fontes ainda a jorrarem. Eram os carteiros. Os carteiros faziam parte da paisagem social transmontana, sendo de inestimável valia nos meios rurais.


Machismo

Um homem não chora. Desde tenra idade ouvi dizer o título de um livro de Sttau Monteiro, Um Homem Não Chora. Choro e continuarei a chorar desconsiderando o mandamento machista, porque chorar era fraqueza feminina.


Elites

No tempo em que não falávamos para caixinhas de variadas formas, cores e sons, nesse tempo das caixinhas música com miniaturas de bailarinas a dançarem enquanto durava a corda, quando se pretendia diferenciar alguém atestando a origem, formação superior, posição ou teres forra do normal, esse alguém – era da elite – fosse nas vilas esquecidas ou nas cidades de todas as dimensões.


Joaninha voa, voa…

Depressa as meninas e os meninos aprendiam a lengalenga cantada quando uma Joaninha pousava nas costas das mãos provocando exclamações e…o insecto repleto de pintinhas pretas nas asas as levantava e…levava a intonação feita carta a Lisboa. Não sei se nas cidades ainda aparecem Joaninhas, nas aldeias voarão nos dias luminosos.


Benfica

Uma tempestade medonha de suspeições atirou o Benfica para a crista da onda do falatório sobre a opacidade e a lei do silêncio existentes no universo do futebol porque a modalidade passou a indústria de milhões e milhões de euros e onde há a possibilidade de lúcaros não há escrúpalos afirmavam sorridentes os almocreves de antanho. Os de agora pensam o mesmo, têm cuidado em não o dizerem e largaram as alimárias mantidas a ração passando a utilizar carros semelhantes aos dos patos bravos, não raro aviões porque poupar tempo é acréscimo de dinheiro.


Luís Amaro

No dia 24, morreu o eminente bibliófilo, pesquisador, investigador e poeta Luís Amaro, aos 95 anos de idade. Durante anos cumprimentei este Homem discreto, educadíssimo, sem saber ao certo quem ele era. 
Trabalhava na Revista Colóquio-Letras, eu estava a amiúde na sede do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas, os dois serviços instalados no prédio 56, da Avenida de Berna. Só debaixo da simultânea direcção da Revista e das Bibliotecas, por parte de David Mourão-Ferreira, é que cheguei à fala circunstanciada com ele. Devo a DMF a dádiva.