ELEIÇÕES E ILAÇÕES

 
Sobre os resultados das eleições autárquicas, já quase tudo foi dito. Como em todas as eleições, há vencedores e vencidos. PS e PCP foram os partidos ganhadores. PSD e BE, os grandes derrotados. O CDS/PP canta vitória por ter resistido à hecatombe do PSD, seu parceiro de coligação. António Costa e Rui Moreira foram os protagonistas da noite eleitoral. Fernando Seara e Luís Filipe Menezes as tristes figuras. O PS alcançou todos os objectivos: mais votos, mais mandatos e mais câmaras. O PS é hoje o grande partido do poder local. Com a presidência de cento e cinquenta municípios em trezentos e oito, o PS reconquista, ao fim de largos anos, a Associação Nacional dos Municípios Portugueses. Esta é também uma vitória do líder do PS. António José Seguro percorreu o país de Norte a Sul, sem esquecer as Ilhas, participou em dezenas e dezenas de acções de campanha e esteve ao lado de todos os candidatos.
A estrondosa derrota do PSD era previsível e anunciada por alguns dos seus candidatos. Ao omitirem o símbolo do partido nos cartazes de campanha, muitos deles estavam a reconhecer que a filiação partidária lhes era prejudicial. Até eles perceberam que as medidas de austeridade impostas aos portugueses são excessivas e injustas, não reduzem o défice orçamental nem a dívida pública e estão a agravar as desigualdades sociais. Ou seja, tanto sacrifício para nada. Desta vez, a vaga da mudança chegou ao arquipélago da Madeira. Alberto João Jardim perdeu sete municípios, incluindo Funchal e Porto Santo. Foi o pior resultado de sempre e prenuncia o fim do reinado jardinista na Região Autónoma.
Preocupa-me o elevado nível de abstenção e de votos brancos e nulos. Desse ponto de vista, a democracia não saiu reforçada. Os responsáveis políticos, sem exceção, devem fazer uma análise cuidada dos resultados e tirar ilações. Num contexto particularmente difícil para a maioria das famílias, o que impede tantos cidadãos de usarem o poderoso instrumento do voto para mudar o statu quo? E é igualmente preocupante que um elevado número de eleitores se dê ao trabalho de sair de casa e ir à mesa de voto, num dia chuvoso, para votar em branco ou anular o voto.
Vale a pena recordar alguns casos para memória futura:

  1. O processo de escolha dos candidatos, em alguns municípios, nem sempre correu bem, dando origem a candidaturas dissidentes, com resultados desastrosos, sobretudo para os dois maiores partidos.
  2. Ficou mais uma vez provado que o PS não pode contar com o PCP nem com o BE para formar uma maioria de esquerda e derrotar a direita. Em Lisboa, o convite de António Costa para um acordo alargado foi liminarmente rejeitado. Felizmente, os lisboetas deram uma confortável maioria ao seu Presidente. O caso de Caminha é paradigmático de como funcionam as cúpulas do BE e do PCP que não hesitaram em desfazer o que as bases haviam acordado. Ainda bem que o eleitorado percebeu a jogada e deu a vitória ao PS.
  3. O bom exemplo veio do Funchal, com uma bem-sucedida coligação de vários partidos da oposição. Aí, as direções nacionais tiveram de respeitar a autonomia das direções regionais e o resultado foi muito positivo.
  4. As confusões em torno da interpretação da lei de limitação dos mandatos prejudicaram ainda mais a já desgastada imagem dos políticos e dos juízes. Situação que devia ter sido evitada.

 
Espero que os diferentes partidos tirem, então, as devidas ilações dos resultados eleitorais.