A GALINHA DOS OVOS DE OURO

 
Há frases que se colam aos seus autores como se fossem uma segunda pele e nunca mais desgrudam de quem as proferiu. “Que se lixem as eleições” é uma dessas afirmações que marcam quem a enunciou não pelo seu conteúdo intrínseco mas porque retrata uma certa maneira de pensar de quem, contrariamente ao que diz, mais não faz que tudo fazer para ganhar eleições. São, quais poetas pessoanas, fingidores que fingem ser dor a dor que deveras sentem.
 
A vantagem da expressão de Passos Coelho é a sua simplicidade direta e de fácil comprovação. Contudo, nos tempos que se aproximam de eleições autárquicas muitos serão os que, querendo ganhá-las, tudo farão e dirão desde que contribua para tal desiderato. As variações são muitas havendo quem jure estar disposto a perder o mandato para garantir uma obra que rapidamente abandonam ao verificar que a sua execução podia comprometer não o mandato que acaba mas o que ainda não começou e que avidamente pretendem garantir. Tanto assim que as preocupações da gestão concelhia começa a afunilar-se para o curto prazo sem cuidarem do que efetivamente é importante para o município e que é, por norma, o médio e longo prazo. Fazem lembrar o célebre dono da galinha dos ovos de ouro.
 
As fábulas têm a virtude de, exagerando e caricaturando nos mostrarem para que lado do preto ou do branco se aproxima o cinzento da realidade quotidiana. Porque vejamos bem, se o dono da galinha dos ovos de ouro estivesse a dias de poder ficar sem ela, obviamente que a decisão de a matar e extrair os pequenos ovinhos dourados não seria assim tão disparatada. Por outro lado, se, pelo contrário, a pertença do galináceo estiver garantida, matá-la enquanto produtiva é a pior das duas soluções para quem pretende viver dos ovos que ela vai por, sejam dourados ou não.
 
Vejamos um caso concreto. Alguns municípios querem aproveitar o rendimento que a instalação de aerogeradores lhes pode proporcionar e que lhes pode grangear alguma mais valia na disputa eleitoral que se aproxima. Obviamente que estas receitas extra serão sempre apreciadas e caem que nem mel na sopa, para financiarem as festas, probendas e outros eventos que contribuem para aumentar a popularidade de quem se vai submeter a votos. Contudo a instalação de gigantescos e inestéticos postes no coroamento das nossas serras e montes vai desfigurar de tal forma a paisagem e o ambiente que terá no futuro um elevado preço. Nenhum programa de promoção turística apresenta nos seus folhetos imagens, referências ou apontamentos com os modernos moinhos de cimento. Por alguma razão será.
 
Promover a instalação de torres eólicas de aproveitamento elétrico é matar a galinha dos ovos de ouro. É destruir o futuro. É pensar apenas na próxima eleição, com prejuízo grave e irreparável das populações a quem se jura que tudo se fará para defender e beneficiar, mesmo que isso lhes custe a re-eleição... quando é precisamente esta que determina tais ações de lesa-município