OS CARROSSÉIS DA SENHORA DA ASSUNÇÃO

Todos os anos, pelo dia 15 de agosto tem lugar, no Cabeço de Vilas Boas, a festa da Senhora da Assunção, a maior romaria transmontana. A sua procissão transporta o imponente andor da Virgem, desde a aldeia até ao cimo do monte, à frente de grande cortejo acompanhada por vários outros andores, várias representações de cenas bíblicas e evocação de santos e presidida pelos reverendos membros do clero regional. Igualmente famoso é o arraial onde pontuam o exuberante fogo de artifício e os variados carrosséis que ali se instalam durante todo o dia e noite fora. Há quem não os perca por nada e há até quem se desloque ali de propósito para disfrutar de boas horas de diversão. Até nesse aspeto a Festa do Cabeço leva a palma a várias outras festividades da região. Estarão lá, seguramente, os melhores, mais modernos e inovadores, todos e cada um dos anos.
São muitos, bons, variados e atraentes.
Mas, apesar da sua qualidade, atratividade e garantia de satisfação, não são os carrosséis que asseguram a liderança da festividade. O que lhe assegura o primeiro lugar é a especificidade, é o lugar, o santuário e, obviamente, o culto à Senhora.
Os carrosséis ajudam? Claro que sim. Ajudam muito.
Mas não passaria pela cabeça de ninguém tentar competir com a festa vilaflorense de agosto patrocinando e investindo apenas no parque de diversões. Imaginemos que, por absurdo, alguém querendo destroná-la mandava instalar numa praça o que de mais moderno existisse em divertimentos mecanizados. E que, para assegurar o sucesso da ação, pagava diretamente aos empresários e oferecia o uso aos cidadãos, de forma graciosa. Poderia, inclusivé, obter algum sucesso mas, obviamente, seria sempre uma atividade não sustentável.
 
Recentemente a Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana promoveu e levou a efeito, no Mercado de Tires, uma Feira Medieval. A animação, no seu essencial, replicava o que aparece por esse país fora, neste tipo de manifestações agora tão na moda, nomeadamente a latrina medieval, o ferreiro, os tocadores de instrumentos musicais da idade média, as cartomantes, os artefactos de couro e cortiça, enfim, uma recreação profissionalizada e standardizada. Ao vê-los, reconheci-os de os ter visto, pessoalmente ou em reportagens fotográficas, noutras paragens. Dei comigo a pensar que fazendo estes artistas disto vida, acabam por percorrer o país de lés a lés divertindo e entusiasmando quem os contempla, visita e com eles interagem. Assim sendo, pergunto, o que poderia levar qualquer um dos milhares de habitantes desta e doutras freguesias vizinhas da capital a percorrer centenas de quilómetros para apreciar o que, mais dia, menos dia, lhe é oferecido à porta ou no quarteirão ao lado?
Quero com isto dizer que não se devem promover as Feiras Medievais? Claro que devem ser feitas e promovidas porque são, sem dúvida um bom cartaz turístico. O que não se pode é fazer dela o principal motivo porque por muito que nela se invista dificilmente se obterá algo diferenciador e fundador de uma atração contínua e sustentada. A Feira Medieval deverá ser o laço do embrulho, o isco, o chamariz, mas o essencial da promoção tem que ir além disso. Tem de trazer agarrado o património local identificador porque esse, sim, é único e irreproduzível. Património cultural, histórico, artístico e edificado. É essa a verdadeira forma de distinguir e destacar a nossa terra. É isso que Moncorvo tem e que torna a sua festividade única e atrativa.
 
Por melhores e apreciadas que sejam as sobremas de um qualquer bom restaurante não serão elas que arrastam os comensais. Ajudam? Claro que ajudam. Mas o verdadeiro motivo da escolha do lugar para amesendar é, sem dúvida, a qualidade dos pratos principais.