Prudência na reflexão, moderação na acção

O mundo está a ficar perigoso mas a resposta não pode ser nem o proselitismo superficial nem a acção precipitada. Os nossos jornais nacionais estão cheios de artigos salpicados de profecias de apocalipse como se tudo o que é diferente do nosso pensamento seja perigoso, populista, nacionalista, comunista, reacionário.
Ultimamente, tem-se apelidado de populista o apelo aos valores tradicionais como se o recurso a categorias do passado não fosse legítimo. É verdade que as categorias com que analisávamos a realidade social estão caducas: esquerda-direita, estado-comunidade versus comunidade internacional, estado-nação versus estado multiétnico, verdade versus falsidade, democracia versus oligarquia já não nos permitem exprimir completamente a realidade em que vivemos. Mas daí a negar a sua existência vai um passo que se arrisca ao tresloucamento.
Cada dia nascem ensaios de novos conceitos e o de pós-verdade é um deles, consagrado no presente ano, matizando o de ambiguidade ou o de visões subjectivas da verdade, da inverdade e da mentira. Vivemos num ambiente onde o primado do sujeito e do seu contexto se sobrepuseram ao primado da verdade intersubjectiva, comumente partilhada pelas comunidades científica e profissional de cada especialidade.
Mas não é só o primado das significações culturais que gera possíveis pós-verdades. É sobretudo o primado do interesse, elevado à categoria indizível de razão das interpretações subjectivas, comunitárias e profissionais.
Neste caleidoscópio de múltiplos poderes interpretativos e reorganizativos, é conveniente ter em conta que uma espécie de caos toma conta das organizações e das sociedades quando a insegurança e o medo do futuro tomam o lugar de uma existência feliz e cheia de boas perspectivas vindouras.
Reagir a essa manifestação de insegurança e de medo com os epítetos de manifestações de populismo e de extremismo seja de  direita seja de esquerda é não perceber que a angústia do diferente e a incerteza perante o futuro são cacacterísticas intrínsecas ao ser humano e cujas causas devem ser procuradas em vez de acusadas de má intencionalidade e de descabimento na nossa sociedade.
Há que ter por isso alguma temperança nas análises sob pena de angustiarmos ainda mais o já triste viver das pessoas. O optimismo deve ser uma atitude permanente perante as dificuldades nunca branqueando estas como se se vivesse no melhor dos mundos. O optimisno é educador e congregador. O pessimismo é desorganizador. Nunca vi um general colocar um exército a ganhar uma guerra sem a atitude optimista de a poder ganhar e sem a consciência do conjunto de acções e de meios necessários à vitória.
O nosso desorganizado mundo carece por isso de análise e da definição de caminhos a seguir. Isto é fácil de dizer e fazer em pequena escala mas quando falamos da escala planetária, em que os mais variados e antagónicos poderes se digladiam, tal concertação é bem mais difícil, mesmo se desejável. Mas foi este desafio que a globalização nos colocou em mãos e, ou bem que o enfrentamos com coragem e optimismo ou mal que ela nos destrói.