Cofres cheios com bolsos vazios

A ministra das Finanças, muito ufana, veio anunciar urbi et orbi que tem os cofres cheios. Afirmação completamente disparatada e que revela uma enorme insensibilidade social. Em primeiro lugar, os cofres estão cheios de dinheiro emprestado que custa caro aos contribuintes. Em segundo lugar, os portugueses foram esbulhados das mais diversas formas pelo governo e ficaram de bolsos vazios. Em terceiro lugar, os cofres estão cheios e o governo reduz o investimento público, verdadeiro motor do investimento privado, sem o que não haverá crescimento económico. Pelos vistos, a ministra, qual tio Patinhas, orgulha-se de ter dinheiro emprestado, parado, a engrossar a dívida. 
Cofres cheios e o governo corta cegamente na Saúde e nos apoios sociais. Tem toda a razão o Secretário-geral do PS, António Costa, ao denunciar a irresponsabilidade e a incongruência da declaração da ministra: “ Então temos os cofres cheios e cortamos nos apoios aos idosos? Temos os cofres cheios e estamos a cortar no Rendimento Social de Inserção? Temos os cofres cheios e estamos a retirar o subsidio de desemprego a quem não encontra emprego? Temos os cofres cheios e temos um terço das crianças em risco de pobreza?”.
O que a ministra apresenta como uma boa nova é para os portugueses uma má notícia e a prova do falhanço da política de austeridade seguida pelo executivo Passos/Portas. Uma vez mais, a narrativa do governo não bate certo com a realidade. O governo diz que tem garantido o acesso aos mercados a taxas de juro baixas. Se assim é, não faz sentido ter os “cofres cheios” com 24 mil milhões de euros que, por ano, custam ao país cerca de 900 milhões de euros. Será que o governo acha que ainda temos de ficar mais pobres? Não será porque, ao contrário do que a direita propagandeia, a situação é tão precária que os mercados não confiam no “trabalho de casa” do governo e podem subir repentinamente os juros? Atualmente, as taxas de juro são baixas, não por mérito do governo, mas por intervenção do Banco Central Europeu. E isso pode mudar.
O Parlamento Europeu publicou recentemente um estudo sobre o impacte da politica de austeridade em Portugal (pode ser lido em www.europarl.europa.eu/studies ) e conclui que todos os direitos fundamentais – educação, saúde, justiça, proteção social – se degradaram. O que tem consequências óbvias no quotidiano das pessoas e também no seu futuro. A política de austeridade seguida pelo governo português conduziu ao empobrecimento, ao desemprego, à emigração e ao desespero. Razão tem o presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, ao reconhecer que os programas de ajustamento representam um atentado à dignidade humana. “Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia e em Portugal”, disse. E acrescentou que é preciso “retirar as ilações da história e não repetir os mesmos erros”. Só o governo português não faz o mea culpa que deve e não quer mudar de política.