Lava-pés no contexto prisional

Ao longo de mais de três décadas no exercício de funções profissionais no Estabelecimento Prisional, já promovi e assisti a diversas visitas do Bispo da Diocese Bragança a esta instituição penitenciária da capital do distrito. O prelado nordestino chegou mesmo a participar em conferências voltadas para os reclusos, no âmbito do tratamento prisional.
A visita pastoral do Bispo de Bragança – Miranda à cadeia, sobretudo nas épocas festivas e com mais simbologia religiosa, do Natal e da Páscoa, nunca deixando de acontecer e tornando-se tradicional, é, naturalmente, contextualizada na ação evangélica diocesana. O que nunca tinha tido oportunidade de ver/assistir foi à Cerimónia do Lava-pés, em ambiente prisional.
Assim, acredito, ou melhor tenho a certeza, que a visita do D. José Cordeiro, na tarde da passada Quinta Feira Santa, ao Estabelecimento Prisional de Bragança, vai ficar por muito tempo, ou talvez eternamente, na memória de todos quantos estiveram presentes, reclusos e não só. Isto porque, inserida na Celebração Eucarística, D. José Cordeiro procedeu à lavagem simbólica dos pés, a 12 reclusos, tal como Jesus Cristo, o Mestre, fez com os seus Discípulos. Uma cena/imagem que, certamente, dura e perdura. E o semblante facial dos reclusos, no momento em que D. José Cordeiro procedia ao Lava-pés, era revelador do contentamento e da inerente satisfação interior, dando a ideia que estavam a compreender, em toda a sua dimensão, o significado da ação, no próprio momento.
Se já na visita Natalícia, D. José Cordeiro se tinha referido à importância da passagem pela Porta Santa, do Jubileu da Misericórdia, salientando que a viagem dos reclusos para cumprirem esse ritual poderia acontecer ao passarem, desde que imbuídos por essa predisposição de Fé, pela porta da cela, vendo nessa passagem um gesto de quem se dispõe a receber a graça do Jubileu, ou seja a misericórdia que emana de Deus, sem condicionalismos, de modo a tornar-se a energia vital, contextualizada, na forma, positivamente reflexiva, de ser e viver de cada um, na Celebrações da Semana Santa Prisional, o Bispo de Bragança, além de abordar a importância das obras de misericórdia, corporais e espirituais, no contexto penitenciário, realçando a que se refere à visita aos presos, fez uma interessante reflexão sobre o texto do Evangelho Jo13, 1-15, São João.
Nesta perspetiva, D. José Cordeiro, pretendeu evidenciar, não só o exemplo de Jesus ao lavar os pés aos discípulos, no que respeita à humildade e aos gestos de tolerância no domínio inter-relacional, mas também o significado do perdão, das práticas da piedade e a valorização da introspeção, potenciando a clarividência necessária para entender que a misericórdia de Deus é acessível a todos.
Tendo em conta a necessidade da partilha, da reflexão, do encorajamento e proximidade no acompanhamento, até num contexto reeducativo e de reinserção, nunca será demais valorizar a ação da singular e transversal responsabilidade que deverá ser assumida pela Igreja Católica no contexto prisional, gestos que estão a ser discretamente realizados, na Cadeia de Bragança, quer pelo atual capelão, Padre Fernando Calado, quer pelo grupo de visitadoras na ação evangélica cristã.