O eclipse dos Politécnicos

O eclipse durou dezenas de anos. Apesar dos avisos dos demógrafos e cientistas sociais a euforia do ensino superior fez reproduzir como cogumelos as universidades privadas, e cada distrito reivindicou pelo menos um Instituto Politécnico (até Lisboa tem um), dois existem no distrito de Santarém. As vozes bem sustentadas em estudos e opiniões amadurecidas avisando dos perigos da proliferação foram mandadas calar, os cursos à escolha faziam (fazem) lembrar as lojas dos trezentos ou dos chineses. Os meninos continuaram a rarear, no entanto, os doutos administradores do universo universitário (e aparentado) persistiram em ignorar os conselhos de individualidades do calibre do Professor Adriano Moreira, preferindo estar à mercê do vento ocasional numa lógica de quem vier depois que feche a porta. E, esse depois está a chegar, diversos Politécnicos e algumas Universidades privadas estão à beira do encerramento por falta de interessados em frequentarem os cursos constantes dos seus catálogos. Os responsáveis pelos Politécnicos inventam paliativos de modo a prolongar a sua capacidade de resistência, só que as perspectivas são assustadoras até porque as melhores Universidades também sofrem grandes quebras, a África é longe e não dá para todos, o mercado da saudade tem ao seu dispor recursos de alta qualidade, daí o eclipse mirabolante estar a esvair-se velozmente. Desde há anos que venho escrevendo acerca do agora eclodido, só de fora do circuito dos politécnicos recebi comentários e pontos tendentes a aprofundar o tema, nesta altura pergunto: como vai ser em Bragança? A estrutura e equipamentos podem ser reciclados, o capital humano – professores e funcionários – é bem mais difícil – razão porque reputo de urgente abrir-se honesto, audaz e profundo debate destinado a pensarmos o futuro do Politécnico. Não tenhamos ilusões, daqui para a frente o efeito carência de jovens aumentará ano pós ano, por tão ingente razão somos obrigados a colocar as avestruzes fora do circuito e convocar todos amigos de pensar em soluções, no caso em apreço relativamente a esta importante nave empresarial do Nordeste, alicerçada em capital a decompor-se rapidamente trazendo tremendos prejuízos para as pessoas, especialmente as directamente afectadas.
A prospectiva é essencial no futuro das organizações, os professores do Politécnico têm de estudar modelos de desencravamento da situação, se não o fizerem resta-lhes imitarem o padre António Vieira.