O novo centralismo democrático

 
1. Como se tem dito e redito, desde que uma «secreta maçonaria» resolveu que, por razões da sua própria segurança e do seu próprio poder económico e estratégico internacional, era preciso evitar a «bomba da explosão demográfica mundial» (que o catolicismo estava «fabricando» com a sua moral sexual e familiar), foi lançada e largamente financiada uma campanha internacional a favor do aborto e de todas as espécies de contraceptivos e abortivos, em termos que já não têm relação nenhuma com uma política decente favorável ao planeamento responsável da geração humana familiar. Campanha anti-natalista essa que está articulada com a destruição da família institucional milenar, que é tendencionalmente fecunda, substituindo-lhe um «liberal comércio sexual de mercado», que é tendencionalmente infecundo. Tudo parece ter começado com o famoso «Relatório Kissinger», de 1974, onde se propunha: "Depopulation should be the highest priority of U.S. foreign policy towards the Third World”. Traduzindo livremente: «A redução da população deve ser a máxima prioridade da política internacional dos Estados Unidos para o Terceiro Mundo».
 
2. O "Relatório Kissinger", que esteve em segredo de Estado durante quinze anos, é hoje conhecido e defende claramente a tese de que o crescimento populacional nos países menos desenvolvidos é uma grande preocupação para a segurança dos EUA, pois desse crescimento resultariam riscos revolucionários, ou de instabilidade política, bem como graves problemas económicos. Por isso, o relatório propôs a promoção da contracepção e de outras medidas de controle populacional, onde cabe evidentemente o aborto legalizado. Este relatório Kissinger e esta política mundial é hoje conhecida de todo o mundo. Basta ir à Internet. Mas não se fala disso.
 
3. Entretanto, é evidente que a implementação da política Kissinger arrancou com imensa força, à escala mundial. No contexto de um amoralismo hedonista bem remunerado hoje crescente, a campanha tem vindo a ser de muitos modos propagandeada: [1] pela publicidade comercial; [2] pelas políticas ideológicas laicas e anti-religiosas; [3] pela comunicação social comercial e política; [4] por partidos políticos cúmplices; etc. Os fabulosos financiamentos das grandes corporações e fundações norte-americanas, a favor das campanhas pela aprovação das chamadas «leis fracturantes», têm tido resultados surpreendentes, desde logo na América Latina.
 
4. Eis a motivação por que, nos mais variados níveis legislativos, inclusive da ONU e das jurisdições internacionais em matéria de direitos humanos, se reivindicam hoje, no século XXI (mesmo sem fundamentação digna desse nome, mas apenas alegando «razões de saúde»), práticas que a humanidade desde há milénios considerou como detestáveis. Designadamente o aborto arbitrário bárbaro e o desprezo da objecção de consciência. Pois foi o que se pretendeu muito recentemente, felizmente sem sucesso, pela iniciativa da deputada portuguesa europeia, Edite Estrela, com uma proposta de resolução no Parlamento Europeu em favor de uma orientação legislativa abortista e contra o direito de liberdade de consciência.
O PE não tem competência legislativa na matéria; por isso, mesmo só recomendando se intromete na competência dos Parlamentos nacionais soberanos. Se a proposta defendesse um sentido contrário, provavelmente a deputada proponente teria levantado a sua voz para se indignar contra uma tão grande ofensa às soberanias nacionais dos Estados e ao princípio constitucional da subsidiariedade da União Europeia. Mas hoje não custa nada usar duas medidas, nem invocar verbalmente direitos humanos como quem agita uma varinha mágica, para argumentar seja o que for no domínio da justiça, do direito, da religião, e até da liberdade de consciência. Invocam-se, e pronto, automaticamente fica-se com a razão e o direito, as duas coisas juntas numa só.
 
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