O palanque…

Sóbrio, rígido, talhado a cinzel e escopro, sisudo, solitário, anti-social, convencido, inflexível, partidário, eis Cavaco o nosso ex-Presidente da Republica. Segundo os livros de Psicologia/Filosofia dos antigos 6.º e 7.º anos dos Liceus o temperamento de Cavaco oscilaria entre leptosomo e nervoso, mais que discutível pois não sou, com toda a certeza, especialista na matéria. Diziam-nos, naqueles tempos, que não havia como fugir, o destino ou fado tomaria conta de nós, seríamos o que nosso corpo transparecia. Um facto, leitura comum, um baixo gordinho é muito mais bem disposto que um magro espigadote. Basta olhar para a maçã-de-adão.
E pronto, estes dez anos de Cavaco-presidente mostraram-nos homem reservado, austero, escondido, meticuloso, medindo distâncias, comunicando com o povo via facebook, por detrás de cortina. A rua transtornava-o, o à-vontade fazia suar, o raciocínio entorpecia, as cagarras, as bananas da madeira e as vacas no pasto mostram homem desnorteado quando a céu aberto, quando saído detrás do biombo. O escuro dos gabinetes, os conselheiros cinzentos e os avisos em detrimento do contacto personalizado, de ouvidores credenciados e de conselhos sinceros, marcaram este homem austero, símbolo da austeridade. Resguardava-se lá, no topo e, quando dele descia, obrigado, a coisa fugia por falta de jeito. Os prazos salvaram-nos, a nós e a ele. O respirar fundo, simultâneo, sentiu-se de norte a sul.
Mas agora, depois daquele profundo e saudável suspiro, eis que na boca de cena, entra o inverso, o oposto, treinado para agradar, de braços no ar aguardando o aplauso. Marcelo respira a rua, a saúde pessoal depende do contacto, da troca de impressões, da conversa, do banho de mar e de gentes. De Belém afastou o facebook, as cortinas e os biombos. Mandou arejar a casa, convidou-nos e fez de anfitrião, juntou-se ao povo e tirou fotografia, dezenas de fotografias para a posteridade. Centenas de famílias exibirão com orgulho, com manifesta exuberância, a proximidade ao Presidente, caixilhos pendurados ou de mesa, comprovarão.
Após o arejar residencial, visitas de cortesia e compromissos governamentais inadiáveis, Marcelo foge das gentes, o impulso arrebata-o, a pevide puxa-o para o laureio, o Francisco e o Filipe, informados, esperam-no. As imagens mostram-nos um Presidente contente, feliz, e nós com ele. Não sei, nunca o vou saber, se todos os portugueses se vergaram naquele beija-mão ou se o Papa nos pôs, a todos, a mão na cabeça. Sei, sinto-o, que fomos todos recebidos e todos fizemos o convite, venha, venha visitar-nos, pois a solidão já lá vai. O Filipe e a Letícia, primos da Hispânia, jovens anfitriões, insuflaram-nos a alma, sentimos o aconchego da proximidade, o afago que nos fugia.
No entanto, o tempo urge, o Sentido de Estado espera. Marcelo foge dele não a sete, mas com todos os pés. Sabemos das gigantes diferenças entre Cavaco e Marcelo.
Esperemos, façamos votos, de que o separador-comum a estes dois presidentes, do qual um não queria descer e para o qual este parece não querer subir, não seja somente O palanque…