O VOO DA ÁGUIA

“O Reino Maravilhoso apenas existe se for visto do céu” garante-nos Francisco José Viegas no Prefácio da obra Miguel Torga – Diário Douro editado pelas Edições Caixotim.
O Poeta de S. Martinho da Anta subia ao miradouro da Galafura para, dali, junto da ermida de S. Leonardo, o libertador de escravos, mais que um panorama, contemplar o Excesso da Natureza do Douro e dos seus socalcos.
Estou certo, que o freixinista António Monteiro Cardoso terá subido ao Penedo Durão para contemplar as arribas durienses. Mas para melhor nos confrontar com a nossa limitação humana, de que nem Ícaro nos libertou, socorreu-se do majestoso voo que o filho de Dédalo desastradamente imitou. Diz-nos na sua obra Boas Fadas que te Fadem recentemente re-editada pela Âncora que “Como que a patentear a insignficância do pobre viajante, que ascende penosa e lentamente, atormentado pelo fundo precipício, que a cada passo espreita traiçoeiro, revoam no ar altaneiras umas águias de majestoso porte, tão altivas e senhoris que o povo as apelida de reais. Com um displicente golpe das suas poderosas asas, cruzam num ápice distâncias incomensurávies, de um extremo ao outro do horizonte, em voos aparentemente vãos, que mais parecem exibições gratuitas para bem recordar aos seres humanos a mesquinhez da sua condição.”
 
Não pode esta mesquinhez justificar qualquer atitude revanchista de quem nelas confia como guardiãs deste reino encantado que recebemos dos nossos avós que melhoraram o que os seus avós já lhes tinham legado. Cabe-nos a responsabilidade de gerir o presente garantindo aos que no-lo receberem que na opção que em nome deles tomarmos hoje nada será esquecido, nada será neglicenciado.
Gerir é optar. Optar é fazer escolhas. Escolher é valorizar.
 
No projeto do Parque Eólico de Moncorvo tudo está devidamente contabilizado... exceto o valor atribuído ao voo de menos de qualquer um dos casais de águias que ali vivem.
Poderá ser dispensável. Terá um custo irrelevante. Será um mal necessário. Talvez faça parte do custo do progresso. Provavelmente poucos quererão saber destes seres alados que nidificam por estes lados.
 
Mas eu não consigo deixar de me emocionar ao ver as majestosas aves, pairando sob o céu azul da Vilariça e subirem lentamente, sem qualquer gesto, sem qualquer movimento, empurradas pela brisa estival que sopra cálida da Serra de Bornes de onde no inverno escorre gélido e cortante o Sieiro.
Outros os farão, mas eu não consigo quantificá-lo. Não tenho, felizmente que o fazer. Basta-me relembrar e disfrutar com Fracisco Niebro: “mágico o momento da águia, o voo suspenso” e refugiar-me nos versos de Miguel Torga e guardar para mim “um gesto de ternura e um pouco de beleza” e valorizá-los de acordo com a minha escala métrica.