Os sinos tocaram a sinais

Em Julho de 1964, partia do Cais da Rocha, em Alcântara, Lisboa, o navio Pátria, com destino a Moçambique. Nele, fazendo parte de um contingente militar formado por três Companhias destinado à guerra naquela antiga colónia portuguesa, encontravam-se entre outros, um furriel miliciano e os dois alferes milicianos signatários.
    O furriel, recentemente falecido, chamava-se José Júlio Cabanal, era natural de Penas Roias, Mogadouro e estudou no Seminário de Vinhais e no Colégio de S. João de Brito, de Bragança.
   Tendo sido um dos que partiram a defender o que, na altura se dizia que era nosso, teve, como nós, a felicidade de regressar são e salvo, contrariamente a muitos outros que, sempre chorados e lembrados, lá morreram.
Como certamente muitos milhares, exemplo do bom companheiro no qual se podia confiar a toda a hora, foi com grande surpresa que recebemos a notícia da sua morte que tanto nos abalou.
   Quando um companheiro de armas nos é roubado pela morte, mal chega o desespero para o lembrar: se fôr no campo de batalha, a reacção leva-nos, principalmente, ao desejo de vingança; fora do campo de batalha, leva-nos, principalmente, à consternação.
Porém, toda a consternação que possa assaltar-nos cada vez mais nos perturbará, se nos deixarmos dominar por ela; e, quantas vezes, é a face de graves situações que nos advêm no percurso da vida!
Se o lamentar nos pode conduzir, por vezes,  a uma paz interior, é bom que nos mantenhamos nessa paz; e, porque essa paz foi atingida, então é bom também que deixemos de lamentar. Nada nos adianta permanecermos num constante lamento. Precisamos, pois, de reagir perante as situações que nos são adversas e que parece quererem confundir-nos no trabalho e no empenho em levarmos por diante o nosso projecto de vida.
Se nos deixarmos entreter com actividades e lamentações que, à primeira vista, nos parecem benéficas, carecer-nos-á o tempo para acolher momentos de agrado que, de facto, só nos beneficiam – como, por exemplo, a valorização, em todas as circunstâncias e momentos, das coisas boas que nos pertencem, mesmo que a conjuntura que muitas vezes nos rodeia, nos seja bastante adversa.
Valorizar o que é nosso poderá ser um motor que ajuda a suportar aquelas situações adversas, ao mesmo tempo que as estudamos e entendemos o sentido que as alimenta, para que possamos compreendê-las e encontrar a melhor forma que as levem a reverter em situações aceitáveis.
Nestas situações aceitáveis e, consequentemente benéficas, permaneceremos, enquanto as soubermos gerir com a nossa vontade, a nossa força e a nossa determinação.
Não quisemos deixar de registar estas considerações, depois de chorarmos a morte de um camarada de armas por quem os sinos, numa manhã deste Verão, no Nordeste Trasmontano, tocaram a sinais.