Santos Populares

O mês de Junho é mês de santos populares, preparando o Agosto de muitas romarias e festas ainda mais populares. Deste modo, no tempo do Facebook e SMS, a Igreja insiste em tradições imemoriais, com um sabor a candura e vulgaridade.
Trata-se de elementos que a análise douta há muito condenou como obsoletos e decretou próximos da extinção. Mesmo na Igreja, este tipo de devoção tem muitos adversários. Questiona-se a pureza de intenção, a elevação das práticas, as distorções paganizantes. O que é facto é que, apesar da inegável elevação educacional do país, os movimentos de piedade popular continuam a florescer.
Prova disso é que, apesar das sentenças de intelectuais laicos ou cristãos, os interesses publicitários, meios de comunicação social e até forças políticas, que têm de lidar, não com teorias mas realidades, aproximam-se crescentemente dessas iniciativas. Apesar de alegadamente moribundas, elas atraem cada vez mais a atenção daqueles que querem estar perto de clientes ou eleitores. Facto que só serve para ainda desagradar mais aos críticos. No meio das inúmeras campanhas propagandistas, como se faz para realmente louvar o Senhor?
Uma festa popular é, antes de mais, apenas isso: popular. Ela tem todas as vantagens e todos os defeitos do povo que a realiza. Parte da alma comunitária, na genuinidade e franqueza que só os movimentos naturais podem ter. Mas está também sujeita a todas as tentações, degradações e malícias que a nossa natureza decaída suporta. É verdade que em muitas feiras e bailaricos, procissões e romarias, até em missas e celebrações, estão escondidas vaidades e baixezas, zangas e hostilidades, invejas e podridão. Somos humanos, e poucas vezes isso é mais palpável que nas festas populares. É por isso muito difícil encontrar a bondade, beleza, justiça e sublimidade do Senhor nas ruas e arraiais das nossas aldeias e cidades.
Essa dificuldade de ver Deus presente não é maior que aquela que se sentia no presépio de Belém, na carpintaria de Nazaré e, acima de tudo, no monte às portas de Jerusalém. Somos discípulos do Senhor que se fez carne a habitou entre nós. Que viveu como aldeão durante muitos anos e participou em todas as festas e tradições do seu povo. Quando hoje, atrás do andor de um dos seus servos mais ilustres, de sua Mãe Santíssima ou mesmo em Seu nome pessoal, o povo se reúne para festejar, não faz sentido perder tempo a olhar para aquelas misérias que estão sempre presentes na nossa vida pecadora.
Nas festas populares há muitos defeitos, simplesmente por sermos humanos. O extraordinário, porém, é que Deus não desdenhe vir ao meio dessa miséria, assumindo-a na Sua cruz. Os pecados são todos horríveis, sobretudo em festas religiosas, mas Deus é sempre maior que eles. Aquele Senhor que passeia pessoalmente nas nossas ruas, nas procissões anuais do Corpo de Deus, quer também marcar presença nas festas dos santos populares. Aí escolhe fazer-se representar por cada um de nós, seus servos, para assim elevar as comemorações.