VERY NICE!*

A nove mil e quinhentos metros de altitude, diz o écran da cabine do avião, sobrevoando a Grécia, com o Monte Olimpo ao fundo, magnífico nos seus 2918 metros já coroados de neve, sinto que devo falar do êxodo do povo sírio.
                  A situação é, a todos os níveis e sem mais detalhes, absolutamente trágica.
Estamos a falar de um dos êxodos mais impressionantes da História da Humanidade. Mais: eta é a maior migração de sempre de pessoas do Médio Oriente para a Europa.
                  No entanto, a Europa não é capaz de encontrar respostas consistentes, estruturadas, dignificadoras e consonantes com os valores que professamos. Onde está o mandamento de “acolher o estrangeiro” tão essencial nos valores cristãos como vestir o nu, alimentar o faminto ou dar de beber a quem tem sede?
Não está! A Europa tem medo! Não sabemos o que fazer e enterramos a cabeça na areia!
Há exceções, claro! A nível Europeu, Ângela Merkel e os alemães que recebiam, no verão passado, em festa, os refugiados sírios na estação de caminho-de-ferro de Munique. E a nível local, que é o que mais importa, sublinho a ação dos responsáveis das instituições particulares de solidariedade social que abriram os braços e estão a preparar respostas de acolhimento humano e responsável como manda a sua natureza institucional.
Já agora e porque é justo, sublinho o empenho liderante do Provedor da Misericórdia de Bragança, Eleutério Alves e nele, para não ser injusto, o de outros que arregaçaram as mangas e dão de nós, Nordestinos, um imagem profundamente humana e solidária.
Até ao momento terão chegado à Europa cerca de 500.000 refugiados sírios e de outras nacionalidades.
Porém, a Turquia, de onde venho depois de fazer observação eleitoral nas eleições legislativas do passado dia 1 de Novembro, recebeu cerca de dois milhões e, só na cidade de Istambul vivem  cerca de 400.000 mil!
Impressionante, como uma cidade de 20 milhões de habitantes (a mais populosa da Europa) acomoda no seu seio quase tanta população refugiada como a Europa inteira. Essa Europa rica e interesseira, ciosa do seu bem-estar e de uma latente pureza rácica!
Sim, pureza rácica, desconfiança face ao estrangeiro, sobranceria intelectual que, apesar de todos os dramas por que passámos décadas atrás, continuam enraizadas até ao mais fundo de nós.
Volto a Istambul, para relatar que, apesar de alguma, pouca, mendicidade que vislumbro ao cair da tarde, tudo parece calmo e sereno, no meio desta convulsão demográfica.
Ouço o funcionário do restaurante que me alerta para os pedintes, uma espécie de intocáveis que, segundo ele não são sírios, mas curdos, que o turco tanto abomina.
Mas oiço também o taxista que me relata a ternura que pode haver no coração de um Homem.
Que a Turquia é um grande país onde cabe muita gente e os dois milhões de sírios refugiados também. “Very nice!”, exclama .
Que, no passado, também os turcos visitavam a síria e os dois povos conviviam fraternalmente. “ Very nice!
Que, ainda na semana passada, os filhos ofereceram, estando ele fora de casa, os seus casacos e os sapatos a uma família de sírios que vieram pedir apoio a sua casa. “Very nice!”
E que não houve qualquer problema porque foi comprar mais um casaco e um par de sapatos novos e que estavam mais na moda. “Very nice!
A ternura do coração daquela taxista, loquaz no seu relato, metido no meio do trânsito caótico nas proximidades da Ponte Galata, deixou-me sem palavras e cada seu “very nice” era um desafio à minha consciência e ao meu comodismo europeu.
 
Adão Silva
*Expressão inglesa para dizer “Muito lindo!”