Editorial

António Gonçalves Rodrigues // Qui, 2016-10-06 15:28

Párem lá de adiar o futuro

Texto

Olhar para as áreas protegidas, hoje, é como olhar para dentro de uma cápsula do tempo. Tudo permanece como há 30 anos, mas com mais pó e teias de aranha, que é como quem diz com um aspeto mais envelhecido, como menos árvores e menos pessoas.
O Parque Natural de Montesinho, uma das maiores áreas protegidas de Portugal, é um caso paradigmático do contracenso que tem sido a política ali aplicada. A área é protegida mas as populações não.
A proteção que aquela zona delimitada deveria dar às espécies autóctones que ali habitam - incluindo a humana - é o mesmo fator que tem deixado aquela zona muribunda. Qualquer autarca (presidente de Câmara ou de Junta sabe na pele o que isso é).
Há anos que as populações e agentes políticos clamam por um novo plano de ordenamento, um palavrão para definir o conjunto de direitos e deveres, uma lista para o que se quer e o que fazer para lá chegar.
Até agora, os governantes só se têm lembrado dos habitantes do PNM quando chega a hora de pagar taxas ou aplicar multas. Desde a falta de meios a que os responsáveis locais são votados à falta de sensibilidade na hora de fazer um qualquer regulamento na escuridão de um gabinete no Terreiro do Paço ou no Palácio de S. Bento, de tudo tem acontecido a esta gente, que durante séculos ajudou a preservar e evoluir o que nas últimas décadas se abandonou.
O PNM tem a capacidade de ser o pulmão do Nordeste Transmontano, quer natural, quer económico. A potencialidade já há muito que foi identificada. Deixem que se cumpra o seu destino.
Párem lá de adiar o futuro desta região e, sobretudo, destas gentes. Sob pena de um dia não haver já nada por estes montes para proteger.

Na Universidade do Minho tive um professor francês de Sociologia que gostava de brincar comigo. “Você é de Brrrragança? E já há estrrradas em Brrragança?? Lá é montanha, só há pedras e cabrinhas a pastar...” Isto a propósito do encontro que o Instituto Politécnico de Bragança recebe, esta semana, com mais de 350 investigadores que se debruçam, precisamente, sobre a montanha. Um grupo que pensa os problemas, aponta soluções. Convém ouvi-los.
Pois é, professor Jean Martin Rabot, em Bragança até já há estradas...