A opinião de ...

A liberdade depois de Abril

New York Times. Um jornal de referência mundial. Um desenho publicado. Três dias depois, retirado. A história foi conhecida quatro dias depois do 25 de Abril… de 2019, não de 1974.

Abril fez-se em nome da Liberdade. De pensamento, de expressão. Soltar as amarras da imaginação e as mordaças da comunicação.

Mas 45 anos depois da Revolução dos Cravos, a revolução das redes sociais e do politicamente correto ameaça com novas formas de amordaçar a criatividade e as ideias.

Quase meio século depois do 25 de Abril, já não se atira o pau ao gato, porque fere suscetibilidades, a D. Chica já não se assusta com o berro que o gato deu.

As músicas infantis, os contos para os mais novos, feitos de chavões e clichés, os ditados populares estão a ser reescritos tendo em conta as normas vigentes na sociedade mais livre de que há memória. E com mais amarras do que há 50 anos.

Um estudo recente, divulgado no dia Mundial do Livro, que se assinalou no dia 23 de abril, dava conta da forma como as crianças estão a ser influenciadas pelas novas tecnologias.

O ato de leitura acontece, cada vez mais, diante de um ecrã e não com um livro de papel nas mãos. As crianças já não precisam de puxar pela cabeça e imaginar uma menina de anoraque encarnado (porque isso do capuchinho vermelho já passou de moda) a atravessar um bosque (uma zona urbana marginal?) para ir levar uns biscoitos à avó doente, que tinha sido, entretanto, engolida por um lobo (que agora é uma espécie protegida e já não é mau, pelo que é preciso rever também o casting para esta história e a dos três porquinhos). Agora, a criança pode ver em vídeo as imagens que acompanham a história que está a ler, no tablet ou no smartphone. Não precisa de imaginar, cada uma à sua maneira. Todas veem o mesmo. Todas pensam da mesma forma

Afinal, não há maior amarra do que a da imaginação. E essa estamos já a coartar com o progresso digital.

Recentemente, Carlos Miguel, Secretário de Estado das Autarquias Locais, escutava, atentamente, uma intervenção mais acalorada num conselho de ministros. Segundo o Expresso, alguém terá, a dada altura, dito que era preciso “estar com um olho no burro e outro no cigano”. “Ora, o cigano sou eu”, reconheceu Carlos. “Quem é o burro?”, perguntou. O silencio perdura…

Bragança não tem comboio há quase 30 anos. Mas agora tem um museu para relembrar como foi o tempo em que, de facto, o comboio ainda apitava e lá ia a apitar… É um sabor agridoce.
Enquanto isso, no litoral o valor dos utilizadores de transportes públicos parece que é superior ao dos utentes do interior do país. Pelo menos foi isso que considerou o Governo na distribuição de verbas para a redução dos passes sociais.
Por cá, se não fossem os municípios da Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes a providenciar o serviço, acontecia como o comboio, guardavam-se os autocarros no museu.

Em Lisboa ou no Porto, é o Governo a providenciar quase todo o sistema de transportes públicos, suportados pelos impostos de todo o país.
Deve ser a isso que se chama o ‘custo da interioridade’...

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