Fanatismos e liberdade de expressão

A defesa da liberdade sem limites para o Charlie Hebdo passou ser o politicamente correto nos últimos tempos, sobretudo nas camadas ditas mais letradas e eruditas, o que me parece duma hipocrisia atroz.
 
1 - Efetivamente, após os atentados contra o jornal Charlie Hebdo apareceu muita gente a dizer-se «Charlie», querendo com isso significar não apenas a condenação dos atentados terroristas dos fanáticos islâmicos, mas também a afirmação duma liberdade de expressão sem qualquer espécie de limites.
Sobre essa matéria impõe-se que sejamos claros e isentos de qualquer hipocrisia. Para isso é preciso ter em conta dois princípios:
1.1 – Uma sociedade civilizada não pode aceitar que, em circunstância alguma, se faça justiça pelas próprias mãos, seja em nome do que for. Aceitar isso seria aceitar a lei da selva, que é incompatível com qualquer sociedade decente. Por isso, ninguém pode deixar de condenar o terrorismo dos fanáticos islâmicos que atacaram e mataram os jornalistas do Charlie Hebdo.
1.2 – No entanto, o princípio anterior não pode ser pretexto nem justificação para defender o direito a ofender os outros através da palavra ou da imagem, seja qual for o argumento.
 
2 - A este propósito não deixa de ser curiosa a hipocrisia com que alguns defendem agora a liberdade de expressão sem limites, como aconteceu com David Cameron, quando no país de que ele é primeiro-ministro essa liberdade não existe. O mesmo se passa em França e em todos os países ditos democráticos (não falando dos outros), como é o caso de Portugal.  
Todavia, a hipocrisia maior reside no facto de os responsáveis do Charlie Hebdo terem despedido um seu jornalista porque publicou um texto considerado por eles como antissemita.
 
3 - É certo que nem todas as caricaturas de Maomé são ofensivas, como os fanáticos islâmicos defendem, mas publicar uma caricatura de Maomé a fazer sexo com uma cabra só não é ofensivo na mente dum fanático, que não pensaria o mesmo certamente se alguém publicasse uma caricatura do seu pai ou da sua mãe a fazer sexo com uma cabra ou com um bode. E o que diria Cameron se um jornal publicasse caricaturas com a rainha de Inglaterra a fazer sexo com um bode?
 
4 - Nesta matéria, acho que ninguém me pode acusar de faciosismo contra a imprensa, porque eu já fui condenado por 3 vezes pela justiça portuguesa precisamente por abuso da liberdade de imprensa, através de textos que só a falta de cultura democrática dos juízes que me julgaram é que podia ter conduzido à condenação, como aliás ficou demonstrado da 3ª vez, em que recorri para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e ganhei a ação contra o Estado Português numa sentença em que me foi dada razão por todos os juízes que intervieram no processo, i. é., por 10 juízes do Tribunal Europeu … e não do tribunal de Bragança ou do Porto.