A opinião de ...

Sustentabilidade ou eficiência? EficienCity

Falar de cidades nos dias de hoje tornou-se uma banalidade. Para o bem e para o mal, muito do que está a acontecer no mundo, neste preciso momento, tem uma cidade como palco ou protagonista.
Descobrimos precisamente isso quando as próprias cidades se empenham em anunciar aos gritos todas as suas façanhas ou potencialidades, escondendo debaixo do tapete as suas debilidades e problemas.
Uma cidade inteligente precisa de saber lidar com tudo. Com o bom e com o mau. Precisa de não se envergonhar dos seus defeitos nem exaltar excessivamente as suas virtudes. Uma cidade inteligente tem de ser, acima de tudo, humilde. Na forma como fala com os seus cidadãos, na forma como comunica.
Naturalmente que nesta época dominada pelos media, pelas televisões e pelo mediatismo e populismo é cada vez mais complicado discernir o que é uma mensagem humilde, de uma mensagem imodesta, ou pior, falsa ou propagandística.
Todos os dias vemos exemplos disso mesmo. Todas as cidades do mundo são escrutinadas em milhares de rankings de todo o género e feitio. Dá para todos os gostos. E se uma cidade fica em último lugar num desses rankings aparecerá em primeiro noutro qualquer. Comunicar os rankings não é, por isso, uma forma inteligente de comunicar a cidade. Pode levantar temporariamente a moral dos cidadãos, dos residentes, dos turistas, mas é sol que pouco dura. É uma comunicação efémera. Sem substância. Não envolve a comunidade nem a torna consciente da realidade, antes pelo contrário. Muitas cidades vivem da ilusão, dos rankings pagos, das  publireportagens nos mais “prestigiados” órgãos de comunicação social. Este ilusionismo, um dia mais tarde, pode tornar-se um problema.
Uma grande parte dos cidadãos já vive conectado, participa nas redes sociais, mas não interage nem está para se aborrecer com o excesso de otimismo e positivismo que subitamente inundou este planeta, nos negócios, nas empresas, nas escolas, nas cidades. O cidadão sabe que a realidade não é assim tão cor-de-rosa como a querem pintar. Por isso, quem quer comunicar com os cidadãos tem de ter uma postura humilde, franca e honesta e, ao mesmo tempo, direta e frontal. Não pode escudar-se em “marketing territorial”, seja lá o que isso for. Tem de se mostrar tal e qual como é. Tem de ser exatamente aquilo que os seus cidadãos sabem que é.
Tudo isto por causa da última moda do palavreado Smart nas cidades: a sustentabilidade. De repente todos querem ser sustentáveis. Até há bem pouco tempo era um palavrão, na boca de fundamentalistas ambientalistas. Hoje está na moda ser sustentável. Mas ser sustentável pode significar muitas coisas. E quando se adopta a sustentabilidade por exemplo no setor energético, ficamos com muitas dúvidas. Uma cidade por ser sustentável energeticamente não significa que o seja, por exemplo, economicamente.
Por isso mesmo há vocabulário que entra na comunicação das cidades sem pedir licença. É adotado porque está na moda e porque soa bem. E quando entra é complicado remover e contrariar a ideia que, embora não seja enganadora também não corresponde à realidade.
Uma cidades eficiente, terá porventura, mais sentido que uma cidade sustentável. A eficiência é o estado de uma perfeita harmonia entre os diversos setores. É uma conspiração de vontades para que toda a organização social e económica das cidades se articule criando bem estar, progresso e desenvolvimento. Sendo eficiente, uma cidade será sempre sustentável. Porque não depende de medidas avulsas nem tiradas de pacotes instantâneos de considerações filosóficas. Uma cidade sustentável pode ser uma coisa boa de se ouvir, mas se na realidade não o for, torna-se ruído e confunde. Uma cidade eficiente, por outro lado, sustenta-se em dados reais, em análises pragmáticas dos resultados de todos os setores, afastando o empirismo ligado ao vocabulário. Afastando possíveis tendências de se alimentar a propaganda e a ilusão. É disso que precisamos também, cidades eficientes na forma de ler o que são e o que serão. A sustentabilidade será um extra. Neste caso, bom.

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