Amor de perdição ou amor da perdição?

O Cuidar e Sospirar [1483] [1] é «a composição colectiva mais extensa» do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende (1516). Este «longo processo judiciário em redondilhas» (p. 9-10), qual «fachada arquitectónica ou então como abertura musical e, seguramente, emblema evocativo do requinte da corte de D. João II nos começos do seu reinado» (p. 10), resume-se à disputa, em 3172 versos, sobre saber «qual era maior tormento / e dava mor sentimento» (v. 2416-7), se cuidar, ou suspirar. Sendo embora o nosso «primeiro inferno de amores» (p. 19), o debate «só quer saber de efeitos ou sintomas e da medida ou grau deles» (p. 40), pelo que os cuidados – de frequência vocabular quantiosa desde o cancioneiro medieval – venceriam sempre os suspiros. Os olhos tristes, saudosos, etc., de um João Roiz partindo-se da amada também não são amor de perdição à portuguesa, que, todavia, irrompe, já, das “Trovas” de Resende sobre quem «el Rey dõ Afonso quarto de Portugal matou ẽ Coimbra por o prinçipe dom Pedro seu filho a ter como mulher, […]» (V, 1973: 357). Ou seja, Inês de Castro é a primeira grande perdida por amor, e, nos reinados seguintes, aceita-se o casamento secreto do casal expresso no verso 1024 da Castro, de António Ferreira, em que a Ama daquela afirma: «Estaes confederados sanctamente.»
Até este tempo, pouco temos de Tristão e Isolda, e nada de Abelardo e Heloísa, dois mitos ocidentais maiores, embora distintos.
As parcas cartas, em latim, trocadas entre estes colocam-nos diante de duas existências na França medieval: um já reputado filósofo de 40 anos e uma aluna, de 18, intelectualmente emancipada. Morrem, respectivamente, em 1142 e 1164. Têm um filho, casam em segredo, mas, descobertos, Abelardo é castrado e ambos se resignam ao convento, donde saem missivas apaixonadas.
É esse o destino de Manuel de Sousa Coutinho e de uma D. Madalena que não podia esquecer o primeiro marido, D. João de Portugal, a tal ponto é dominada por maus agoiros: alimentou um amor da perdição, sobrepairando, ameaçador; simultaneamente, ela e Telmo perdem Maria, por quem têm um amor profundo. Frente dupla semelhante a Frei Luís de Sousa (1843) urdia Garrett nas Viagens na Minha Terra (1845-1846), quando Joaninha enlouquece e morre no abandono de Carlos, que, por seu lado, se perdeu para o amor, ou amou perder-se, em derivas por sucessivas mulheres.
A diligência epistolar de Abelardo e Heloísa é recuperada pelos séculos XVI a XVIII, sobressaindo outra freira, a Mariana das Lettres Portugaises (1669), que apostrofa o seu fugido cavaleiro, sem resposta. Cuida, suspira, mas, ao fechar a quinta carta, entrevê-se libertação. Na teorização stendhaliana De l’Amour (1822), Heloísa e Mariana exemplificam l’amour-passion.
Afortunado entre França e Inglaterra, com repercussão modelar em Julie ou La Nouvelle Héloïse (1761), de Rousseau, também é rastreável “O mito de Abelardo e Heloísa na poesia portuguesa de Setecentos”, título de Maria Luísa Malato Borralho[2], que ainda sonda o século XIX, em particular, António Feliciano de Castilho. Mas falta acrescentar um pormenor. Heloísa recolhe o corpo do amado e pede às demais freiras para, na hora da morte, ser enterrada junto dele. Ao abrir-se a campa (dizem lenda e crónica), abriram-se para ela os braços de Abelardo. “O noivado do sepulcro”, de Soares de Passos (Poesias, 1856; influência do Herculano de “A noiva do sepulchro”, Poesias, 1850, p. 277-291), com os esqueletos abraçando-se, culmina entendimento que nem o cilício venceu.
Tristão e Isolda é ficção, e, por isso, um mito cuja complexidade vem acrescida nas variantes textuais. Órfão de pai, morre a mãe ao dá-lo à luz; raptado, é salvo de um navio pirata por Marc, rei da Cornualha. Além do respeito devido a este tio, há uma dívida de gratidão, antes de ser de vassalagem. Tristão cresce forte, novo Teseu, antes de peregrinações ulisseias. Numa delas, a pedido de Marc, que deseja casar com Isolda, a Loira, Tristão salva-a de casamento indigno, mas sai ferido; é, entretanto, curado por ela.
No regresso, ainda no navio, sedentos, bebem desse «mágico veneno» que nos transforma, «que pôde transformar meu pensamento» (dirá Camões, no soneto “Um mover d’olhos, brando e piadoso,”). Que filtro é esse: amor do amor? amor da morte? figuração do pecado original? Certo é que saem alterados, obrigando-se um Tristão igualmente Orfeu a assistir, disfarçado, à passagem do cortejo nupcial, tal como fará Binmarder (anagrama de Bernardim) no casamento de Aónia (= Joana), em Menina e Moça (1554).
Também Iseu[3] vive com o espírito alhures, à espera da prova dos nove; mas a experiência do reencontro com Tristão, na floresta, vai fracassar. Busca Marc demonstrar que não passam de crianças, fora do princípio da realidade? Ou, nessas brincadeiras, provavam não estar à altura da convenção do casamento, e suas responsabilidades? Terceira hipótese: no seu édipo invertido, Tristão deseja-a casada, dela fazendo ponte para chegar ao amor proibido de um familiar. Hipótese reforçada quando, por seu lado, casa com outra… Isolda, a das Mãos Brancas, substituta indiferente e defesa contra o perigo de se reunir àquela, se a relação é, afinal, com o tio…
Esta pulsão homossexual perde Tristão, dando azo à vingança da segunda Isolda: avistado um navio de vela branca, onde vem a Loira para um adeus ao moribundo, informa aquela tornar o mensageiro sob vela preta, significando que mais ninguém vem. A desilusão calha a ambos: a Tristão, sem um derradeiro fôlego de esperança, diante de tal informação; a Iseu, sem última troca de olhares, por que se esforçara.
É maior a tragédia se não intervém uma voz assim perversa, mas dependemos do inocente destino. Bebendo em novella de Matteo Bandello (1554) e poema trágico de Arthur Brooke (1562), The Tragedy of Romeo and Juliet (1597) prepara-nos desgraças desde o título: aquele, filho único dos Montague, apaixonou-se pela ideia de estar apaixonado por uma inatingível Rosalina, ausente na peça. Desperta para o amor e para o sexo com a adolescente filha única dos Capuletos, quando levado a baile em casa destes.
Shakespeare louva a energia de jovens, que nada seriam, contudo, sem a amizade: Romeu vinga, desforrando-se no assassino Tybalt, a morte do amigo Mercutio. Expulso de Verona, refugia-se em Mântua.
Ora, os pais querem unir Julieta, já secretamente casada, ao Count Paris, o que exige recurso a Friar Laurence, comprometido na primeira união. O expediente é fácil: droga-se a menina, que, com ares de morta, será posta em tumba familiar, até que Romeu venha buscá-la.
 Como, porém, um Romeu ausente da trama interpreta esse sono? Beija-a, no que julga ser sono da morte, morrendo; mata-se Julieta, ao acordar para o trágico equívoco, de que se despede também com beijo. Findam as contendas entre famílias unidas na dor.
Não era tragédia bastante a morte de Romeu, perdido por amor, de cuja perda se culpa, embora nós olhemos ao destino? O gesto dela não será espectaculoso, logo, redundante? Quem, drogando-se, aceitara primeira perda de consciência, ou morte aparente, confirmava segunda vez a queda adolescente para a perdição, quando a homenagem ao amor requeria força de viver. Prova de amor indestrutível, nem era preciso chegar ao extremo de uma personagem camiliana ludibriada por Marta, cuja caveira venerou, em redoma, durante 66 anos![4]
António Augusto Teixeira de Vasconcelos adoptou essa solução n’A Ermida de Castromino (1870), que oferece o triângulo mais casto da literatura universal: o velho Salvador escorrega para a morte na Serra da Estrela e a mulher, D. Ana – que ama Simão, de quem esteve noivo, que também a ama, ambos aceitando um casamento de fachada quando foi urgente salvar a honra do pai dela –, segue-o. Quis perder-se, não por amor, mas por respeitos, ou preconceito, que é perdição maior. Simão, que os acompanhava, sepultou-os, e abriu terceira cova à espera do último suspiro… O autor pudera ter motivado a perda de Salvador, justificando uma vez mais este nome, se o mesmo se reconhecesse intruso no sacrifício dos jovens, libertando-os para a felicidade. 
Esse impasse fora resolvido no triângulo sofrido de um Werther (1774). Paixão de artista, ele ama Charlotte, mas admira o noivo, Albert, 11 anos mais velho. Sem saída, refugia-se em aldeia, onde se suicida. Como? Pretextando viagem, e necessidade de se defender, pede as pistolas de Albert, que Charlotte lhe envia. A inocência desta jovem magnifica um sofrimento; às mãos desta, ironicamente, desejou morrer.
Os impossíveis do wertherismo tiveram consequências, mesmo se é impossível contabilizar as formas e agentes suicidários. No impasse com Hermengarda, Eurico, o presbítero (1844) buscou a morte no fragor da batalha. Recusando Paulina (que o há-de assistir à cabeceira), humilhado por viscondessa, o Maurício de Memórias de Um Doido (1849), qual Tristão assistindo ao noivado de Madalena, perde-se para salvá-la, ao suster carruagem à desfilada, onde periga a vida dessa inacessível «mágica visão». Também um abismo separa o José Matias queirosiano da «divina» Elisa Miranda, cujos dois maridos morrem, sem que aquele se chegue, gorando as expectativas de viúva; será o amante lisboeta a representá-la no passamento do infeliz. Nenhuma das muitas interpretações fundou o prazer de Matias ao vê-la com outros, seja, um terceiro: defendido de tal perigo, assim se satisfazia. Se definha, é por amor-próprio.
O amor-próprio onanístico, revertendo a um Tristão de pacotilha, já vencido por amor deveras de perdição, está em Cláudio (1852), de Júlio César Monteiro. Cláudio lança a mulher, Maria, para os braços do amigo Luís de Lima: apaixonam-se. Perdido este, seu objecto de desejo, que ela mediava, Cláudia reconsidera, já sente algo pela esposa, talvez uma faísca de ciúme (que é o pior conselheiro nestas matérias); Lima, neste transe, inventa que ela não o ama, e regressa a Coimbra: «Salvou-me perdendo-se», fecha Maria. Um mês depois, Cláudio dá um baile; Maria pede-lhe uma valsa, e desfalece, envenenada. Ele bebe do mesmo cálice e, sobre o cadáver, despede-se, com «o primeiro beijo de amor».    
O camiliano Amor de Perdição (1862) será mais claro na resposta à nossa interrogação. Tudo seria mais pacífico sem Mariana, que, aos 24 anos, tem idade – não só condição social – para regrar impulsos de jovens com sangue azul e revolta na guelra. Simão sabe-se marcado, destinado a um fim trágico, que cumpre: não foge após o seu crime, sabendo perfeitamente que se cumpre em algo superior ao amor que não deixa de dedicar a Teresa. Não se trata de Amor como perdição[5]; ele ama, mais do que Teresa (razão, pretexto), a inarredável perdição, anterior àquela: é um amor da perdição. Não é o caso das mulheres, e da mais presente Mariana: sem o corpo de Simão – que não estava sepultado em terra (nesse caso, talvez recuperável), mas perdido em mar –, a vida desta não faria sentido. Discreto e atento, o seu é o verdadeiro amor de perdição.
Sem as oscilações de Tristão, sem o desamparo e sem-saída de Inês, sem a inocência triste de Julieta, sem a fuga e subterfúgios de Werther, sem a ilógica de Ana ou assomo punitivo de Maria, todos dependentes de outrem, Mariana vê-se sozinha com o destino e, ciente (até por ouvi-lo do pai, filha obediente) de que nunca Simão seria seu marido, decide justificar um título feliz.  

[1] Ed. de Margarida Vieira Mendes, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.

[2] Revista da Faculdade de Letras “Línguas e Literaturas”, Porto, XIX, 2002, p. 267-286.

[3] Iseu, em vez de Isolda, está em D. Dinis, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda, 1567, Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia, 1605; Iseo, no Quijote (1605, cap. XLIX). A muito reimpressa tradução castelhana (1501) de Don Tristán de Leonís vulgarizara o mito. Em Gabriel Velázquez del Castillo, Clarián de Landanís (Toledo, 1518), achamos «la reina Yseo Labrunda». Ver Clarián de Landanís. An Early Spanish Book of Chivalry by Grabriel Velázquez de Castillo, ed. Gunnar Anderson, Juan de la Cuesta, Newark, Delaware,1995, fl. CLXXVIIIr.
 

[4] Ver “A caveira”, em Cenas Contemporâneas, 1855.

[5] Cf. Maria das Graças Moreira de Sá, “Camilo Castelo Branco: do Amor como Perdição”, AA. VV., Camilo: Leituras Críticas, Porto, Edições Caixotim, 2003, p. 91-102. Desenvolvo a minha tese em recensão a Abel Barros Baptista, org., Amor de Perdição. Uma Revisão. Colóquio-Letras, 175, Setembro / Dezembro, p. 214-217.