A opinião de ...

O ar da Cidade Inteligente

Nunca terá fim. Muitos pensavam que as cidades se tinham afundado em indecências pecaminosas, excessos descontrolados de pestes diversas e insólitas ocorrências criminosas, viciantes e imorais. Acabamos, derivado da nossa própria natureza humana, todos atraídos por estes verdadeiros faróis de oportunidades lascivas, mas também supressoras das elementares necessidades do ego e da luxúria. Acabamos por sucumbir, uns mais outros menos, aos chamamentos do imprevisível; à agitação dos movimentos intensos artísticos e criativos. Sons, cores, toques que nos reanimam, arrepiam, vociferam no interior da alma sensações únicas e desejos inconfessáveis de viver a história, ou simplesmente, viver.
E viver em cidades parece às vezes mais um ato de desespero do subconsciente enjaulado do que uma atitude lógica e racional. Afinal, como é possível viver “com aquela poluição toda”. Como é possível ter ruído permanente. Como é possível alguém aguentar a pressão da falta de segurança, o risco real de ser roubado, assaltado, violado ou assassinado. Como é possível trocar a frescura do campo, a “qualidade de vida” e o sossego de uma qualquer aldeia remota e perdida em montes ou vales por esse mundo fora, por esta fatia de sensações efémeras de felicidade. Sim, há exceções! Claro que há! Nem todos tomam essa decisão de ir para a cidade. Conformam-se com a paz bucólica da floresta, da natureza, do silêncio. Uns porque não querem outros porque não podem. Mas todos, certamente já provaram a experiência e só os próprios sabem as sensações secretas vividas. Os anseios e desejos reprimidos. A inveja e a angustia de, porventura, não avançar corajosamente no mesmo rumo dos intrépidos herdeiros dos navegantes e descobridores de outras épocas.
Quando falamos hoje em cidades inteligentes falamos na opção administrativa e cívica de controlar os excessos e limitar as deficiências. Usando, por exemplo, a tecnologia (IoT) para manter os serviços às populações num rácio de eficiência adequado. Analisando dados e decidido de forma pragmática e sustentada em conhecimento (Big Data). É também apelar aos cidadãos que participem, que se integrem numa realidade mais humana e iluminada. Sim, as cidades deste século são as grandes nações. Mas se virmos bem sempre o foram. Sempre foram berços e fontes incessantes de arte, ciência, cultura, engenho e criatividade. E porque é que é assim? Porque é que a inteligência se concentra e fervilha nestes ambientes “semi-corruptos” e poluídos de excessos e fraquezas misturados com grandes epifanias, ideias e sementes de progresso. Porque vivemos sempre dependentes “efeito” e não da causa. O efeito é o resultado final da nossa ação inteligente. A causa é o que utilizamos, desesperadamente e sem olhar a meios, para obter esse efeito. Como um organismo ou fenómeno estranho, mais um milagre do universo, o efeito dependerá sempre da quantidade de energia utilizada na causa. E neste processo, entra a inteligência de afinar os processos com a quantidade de “energia” disponível. E em algumas cidades ela é escassa. Como consequência, também os efeitos o são. E como é verdade que precisamos do ar para respirar, há também outras necessidades, pelos vistos ainda mais básicas, que tentamos manter a todo o custo. A cidade é onde a inteligência respira e a mente se expande e nos tornamos conscientes do que é ser humano. Conscientes do que é viver. E mais tarde ou mais cedo todos sentimos necessidade de respirar esse ar. Uns viciam-se outros intoxicam-se.

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