A opinião de ...

PORQUE O MAL EXISTE

No passado dia 16 de maio, participei num colóquio subordinado ao tema “Desumanidade e Justiça: as experiências médicas durante o período nazi 1933 -1945”. Foi no Museu da Farmácia, em Lisboa, cuja visita recomendo.
Na minha intervenção, sublinhei que nunca é demais relembrar as atrocidades cometidas pelo nazismo. Sobre os judeus, sobre os mais vulneráveis, sobre os que não eram ou não pareciam ser “arianos”.  E que não pode ser esquecido o sofrimento acrescido das mulheres e crianças, pelo facto de, além do mais, serem mulheres e crianças.
É preciso recordar e refletir sobre o que se passou, como se passou e porque se passou, tanto mais que, não obstante mais de seis décadas de uma Europa unida na valorização dos direitos humanos e no respeito pelo Outro, na defesa da paz, da liberdade, da democracia, há já uns anos que vamos assistindo à emergência de preocupantes sinais de que a história, ao contrário do que se diz, até se pode repetir. Os movimentos radicais, populistas e xenófobos, incitando o ódio a tudo o que é diferente; os grupos fundamentalistas que fomentam o medo em vez da tolerância; as guerras que matam inocentes e destroem países; o terrorismo que gera insegurança e condiciona a Liberdade, são mais do que motivos de preocupação. Sinais também visíveis em alguns países europeus na resposta à crise dos refugiados. Sinais que não devem ser ignorados.
No referido colóquio, revisitei aquilo que para mim representou uma dantesca descida ao inferno, a visita aquele que é considerado o maior campo nazi de extermínio, Auschwitz-Birkenau.
À entrada de Auschwitz, por baixo do famigerado slogan "Arbeit Macht Frei" (O Trabalho Liberta), ao ver os muros de tijolo das edificações do campo rodeado de arame farpado, recordei o que já antes vira, mas em versão cinematográfica. O mesmo aconteceu à entrada de Birkenau, depois de percorrer a pé os trilhos do outrora comboio da morte. Vi o que sobrou das câmaras de gás e dos fornos crematórios. Imaginei o horror da denominada “Solução Final”. Emocionei-me com as palavras, mesmo sem as entender, de um grupo de jovens judeus que homenageavam os seus antepassados, vítimas do holocausto. Imagens impressivas, sem dúvida. Mas as que ficaram mais indelevelmente gravadas na minha memória emotiva foram outras. Um amontoado de brinquedos de muitas formas e cores, prova tangível de que milhares de crianças, que um dia souberam brincar, ali pereceram porque o mal existe. Parafraseando Augusto Gil, “mas as crianças, senhor, porque lhes dais tanta dor?! Porque padecem assim?!”.
Crianças e mulheres mortas nas câmaras de gás. Crianças e mulheres que serviram de cobaias dos médicos das SS que, no hospital montado no Bloco 10, realizavam as tenebrosas experiências “médicas”.
Noutra sala, o monte de despojos era formado por cabelo de mulheres. Cabelos que emolduraram rostos de mulheres de todas as idades, de muitas nacionalidades e profissões, mulheres a quem arrancaram os filhos, mulheres que amaram e foram amadas, mulheres a quem foram tirando tudo, incluindo a vida. Saber que os cabelos eram ensacados e vendidos como matéria prima para fabricar tecidos…ultrapassa o imaginável. Naquele local, compreendi o sentido de “a banalidade do mal” de que fala Hannah Arendt.

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