A opinião de ...

Libertação do tempo

Há uns anos dei com um documento da responsabilidade do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura intitulado «do tempo livre à libertação do tempo». Nele se recolhiam uma série de reflexões sobre o tempo livre. O caráter lúdico da existência, a festa, o divertimento foram temas abordados. Ora, com o advento do verão chega para muitos o período das férias e das festas. Por estes dias o Mundial de futebol capta também a nossa atenção; e toda esta época surge carregada de um profundo simbolismo, uma mensagem densa a desvendar e a compreender: a libertação do tempo. É uma necessidade para os dias de hoje. Cada um sentirá por si esta pertinência. Quantas vezes o período que podia ser de descanso se transforma num espelho da nossa sofreguidão! É por isso que o tempo livre pode ser o sintoma mais claro da falta de uma autêntica libertação. O tempo, seja ele ocupado ou livre, anseia por ser libertado. Longe de programas detalhados, planos sufocantes, onde se perdem os rostos que nos fazem falta. O tempo verdadeiramente livre propicia inúmeros encontros e reencontros sem os quais a vida perde vida.
Para os cristãos o tempo livre não é uma expressão de fácil compreensão, uma vez que pode pressupor que o resto do tempo se encontra aprisionado, acorrentado. Na verdade, um batizado por natureza é livre e libertador, daí que se proponha construir a libertação do tempo. Algo que consegue colaborando com Deus, co-criando com Ele. A época das férias e das festas, tal como o desporto, a cultura e todo o mundo artístico são alegorias do que pretende ser toda a nossa vida: um jogo fascinante entre o tempo e a liberdade. Porém, são já expressões do próprio tempo libertado. Bom seria que a vertente comercial as não desfigurasse.
Na narrativa da Criação, que podemos ler no Livro do Génesis, Deus no sétimo dia descansou. Deste modo o descanso surge revestido duma força dignificadora. Semanalmente, o descanso é como que um fármaco contra a ânsia de possuir ou contra a distração diante do essencial. O descanso sabático era o tempo oportuno para o cuidar da relação com Deus. Um tempo intensamente espiritual. Deus e os outros eis o essencial tantas vezes esquecido e desconsiderado. Não porque o trabalho leve a atenção, mas porque a finalidade dos trabalhos não tem no horizonte o Outro e os outros. Nessas circunstâncias, pode ganhar-se o trabalho, mas perde-se a vida; pode conquistar-se um nome, mas perdem-se os nomes. Por isso, o tempo livre libertado «é tempo de integração. De enriquecimento cultural, pessoal, afetivo. De exercitação do músculo da imaginação e da criatividade. De explicitação da vida interior».

Edição
3685