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Entrevista // D. Amândio José Tomás, Bispo Coadjutor de Vila Real Por: Rádio Universidade / Secção: Igreja / 27-03-2008 Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Patrícia Posse
Entrevista concedida à Rádio Universidade para o programa “Perfil”

Foi docente em Vila Real, em Lamego e no Porto. Passou alguns anos da sua vida em Roma, onde se formou em Teologia e Sagrada Escritura. Foi Vice-reitor e Reitor do Colégio Português nessa cidade, até ser nomeado bispo auxiliar de Évora. É um regresso com entusiasmo, com saudade, com nostalgia ou esperançado em poder ajudar as pessoas que o viram, no fundo, crescer?

É um regresso cheio de emoção porque regresso à minha terra, à terra que me viu nascer, onde eu cresci e onde fui educado e é um regresso esperançoso porque para onde vamos, nós levamos uma incumbência, vamos decididos a participar num projecto. O projecto que eu trago, naturalmente, é um projecto de fé, porque acredito em Jesus Cristo, porque tenho o desejo de o tornar conhecido e amado e porque quero ajudar as pessoas. O meu lema de ordenação presbiteral, já com 41 anos, foi o de santa Teresinha do menino Jesus. Deus e as almas e mais não conta. Por conseguinte, eu venho decidido a falar aos meus irmãos, aos meus conterrâneos vila-realenses é de Jesus Cristo, de o propor às suas populações, de contribuir com a minha quota-parte para a valorização destas gentes. Valorização cristã, mas queria que fosse também uma valorização humana.

Teve uma infância feliz? O que recorda mais dessa altura?

Recordo-me de brincar com os meus irmãos no seio da família, a estadia na escola. Recordo por exemplo que fui o primeiro a fazer a quarta classe, porque antes de mim não havia escola e as pessoas tinham de deslocar-se vários quilómetros para ir à escola. Eu fui o primeiro, lá na aldeia, a fazer a quarta classe.

A sua aldeia ainda tem escola?

Já não há escola na minha aldeia nem em aldeias mais populosas contíguas, porque não há crianças.

Qual é o sentimento que tem ao ver a escola onde estudou sem crianças?

Um sentimento de tristeza. Temos esta região a desaparecer. Qualquer dia, isto é um mato completo porque não há gente. Não havendo crianças e jovens não há futuro para esta região.

Afirmou, quando chegou, que estamos perante uma desertificação, um crescente despovoamento da região transmontana. É notória a sua preocupação, mas em concreto o que se poderá fazer?

Temos de assentar num esforço de inteligência, aliás o diálogo que eu pretendo realizar é ao nível da inteligência, ao nível inter-cultural e mesmo político com os governantes responsáveis. Eu creio que na história portuguesa, desde o início, tivemos um pouco esse problema. Já no tempo de D. Sancho I se insistiu em prender as populações no interior e sobretudo na zona fronteiriça até por razões de defesa dos inimigos espanhóis. Havia incentivos para fixar as povoações, essas pessoas que lá residiam tinham vantagens, facilitava-se-lhe a vida. Deveríamos descobrir incentivos para fixar populações. Se houver aqui condições dignas, as pessoas não vão aventurar-se a ir para o Porto ou Lisboa. É preciso criar condições para que estas pessoas tenham um emprego. Temos muitas riquezas aqui, devíamos apostar nessas riquezas, criar pólos de desenvolvimento para fixar as populações.

Acha que os autarcas podem fazer mais no futuro?

Poderão fazer os autarcas com a ajuda do Governo Central, porque se eles também não tiverem dinheiro e se os serviços vão sendo tirados, é evidente que depois as pessoas, não tendo forma de se empregar e de ganhar dinheiro, continuarão a afluir para Lisboa e para o Porto.

Retirar estes serviços, nomeadamente os de saúde, é uma má política?

É necessário racionalizar serviços, mas acho que deveremos ter essa preocupação de não deixarmos estas populações órfãs e sem condições. Não lhes podemos retirar serviços, devemos racionalizá-los. Quando retirarmos um serviço já lá devemos ter outro a substituir e que assegure esse serviço.

Está preocupado com a menor presença de jovens nos seminários, havendo com isso uma diminuição do número de sacerdotes?

Certamente que é uma preocupação, mas temos de reflectir. Primeiro há uma sangria, um Inverno demográfico. Se não houver jovens não poderá haver sacerdotes. Em segundo lugar é preciso ter uma diferente concepção de igreja. A igreja é o povo de Deus, feita por todos. Não é do Papa, dos bispos, dos sacerdotes. A igreja é de todos os fiéis baptizados. Por isso, todos são co-responsáveis no anúncio de evangelização. O concílio Vaticano II promoveu o apostolado dos leigos e é preciso insistir aí. Não podemos esquecer a vocação laical. É fundamental termos cristãos conscientes.

Em Portugal é conhecida a sua ligação ao actual Papa Bento XVI. É uma pessoa de trato fácil?

Uma pessoa de trato fácil, um homem que sabe ouvir. Ouve interminavelmente as pessoas e é de uma inteligência rara. Eu diria que é um génio humilde. É uma pessoa simples que propõe a verdade, mas que tem uma grande coragem e uma grande firmeza de fé. E é um comunicador, até porque foi professor. Sabe dizer as coisas mais difíceis, profundas, de uma forma elegante, simples e clara. É a pessoa ideal para esta época.

D.Amândio é uma pessoa que lê muito? Lê preferencialmente livros religiosos ou também gosta de conhecer o que escrevem os grandes escritores mundiais?

Tenho um prazer muito grande na leitura. Gosto também de ler os grandes autores mundiais, a literatura entusiasma-me. Gosto muito dos livros de história, filosofia e naturalmente teologia. Eu delicio-me a ler.

Que outros hobbies o motivam?

Gosto de música clássica, sem dúvida. Também gosto um pouco de pintura. Tudo o que é belo atrai o espírito humano.

Vila Real estava sem bispo titular há três meses. Neste momento já assumiu funções. Afirmou que iria continuar o caminho traçado por D. Joaquim Gonçalves, recorrendo não só aos seus conselhos mas também à sua experiência. Tem tido notícias de D. Joaquim Gonçalves?

Estive com ele na semana passada em Coimbra. Ele vive actualmente na casa episcopal daquela cidade. Periodicamente vai ao Hospital Universitário, onde é acompanhado pelos seus médicos. Ele está bem, com um espírito muito lúcido. Está talvez um pouco mais magro. É de facto uma grande alegria ouvi-lo, porque ele tem um conhecimento da diocese que eu não tenho e ele continua a ser o bispo titular. eu sou simplesmente bispo coadjutor.

O que mais falta faz neste momento na diocese de Vila Real?

Eu creio que neste momento a falta maior será de evangelização, catequese com vista à formação de pessoas, porque já não estamos na primeira metade do século XX. Estamos no século XXI e temos de acompanhar os tempos, temos de formar pessoas para poderem anunciar Jesus Cristo de uma forma nova, de uma forma diferente a que nos convida o Santo Padre.

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