Diocese de Bragança-Miranda - Entrevista a D. José Cordeiro

“Muito do tempo que os padres têm de gastar em tarefas administrativas devia ser gasto na pastoral”

Publicado por António G. Rodrigues em Qui, 2018-02-01 10:26

D. José Cordeiro completa em 2018 sete anos à frente da diocese de Bragança-Miranda. No arranque de mais um ano, faz, no Mensageiro, um balanço dos primeiros sete anos do seu episcopado e lança pistas para o futuro.
Mensageiro de Bragança: Que balanço faz do ano que passou, que foi de transição entre dois projetos pastorais?
D. José Cordeiro:
Globalmente é muito positivo. Este nosso primeiro projeto pastoral, repartir de Cristo nos Caminhos da Missão, vivido ao longo de cinco anos, com um sublinhado em cada ano (o Ano da Fé, o Ano da Vocação, o Ano da Bíblia, o Ano da Santidade e o Ano de Maria) permitiu-nos criar uma maior consciência e sentido de pertença ao mesmo corpo que é esta Igreja local, a diocese de Bragança-Miranda que peregrina aqui, no território do Nordeste Transmontano, e criámos uma maior coesão e consciência eclesial.

Além disto, e ao mesmo tempo, fomos desenvolvendo as prioridades do início do ministério episcopal, depois de uma Assembleia do Clero e dos vários conselhos, e consolidado pela visita pastoral, fomos levando por diante a formação do clero, a formação dos leigos e a reorganização pastoral. Não é o mudar por mudar mas para ser fiel ao Evangelho no hoje da história, aqui e agora, na nossa realidade que é um território muito extenso mas com a limitação da diminuição das pessoas que aqui vivemos. Temos constantemente acompanhado o envelhecimento das pessoas, o défice demográfico, dos poucos nascimentos, da pouca fixação das pessoas aqui no nosso território. Naqueles que cá continuamos, vê-se que há uma maior consciência e um maior sentido de comunhão e de unidade. O próprio caminho que estamos a fazer nas unidades pastorais, nos arciprestados, em toda a diocese, leva-nos a concluir isso e a dar profundas graças a Deus pelo caminho percorrido. Sentimos isso de uma forma especial na abertura do ano litúrgico e pastoral e até essa coincidência do ano pastoral com o ano litúrgico nos tem feito crescer cada vez mais na fidelidade a Cristo e ao seu Evangelho nesta consciência recebida pelo batismo.
 
Numa caminhada, não vão todos ao mesmo ritmo. Mas o importante é que possamos todos caminhar, que ninguém fique para trás e que ninguém desista, nem que às vezes tenhamos de ir mais devagar, outras vezes mais apressados. Quem se encontra com Jesus Cristo não pode reter para si a beleza desse encontro, precisa de o comunicar, e de estar atento aos sinais que à sua volta vão surgindo. Por isso, é com alegria, com gratidão e com esperança que fazemos esta avaliação positiva dos anos que já peregrinámos juntos e os projetos pastorais são linhas de força que nos conduzem para o mesmo e único caminho, que é Cristo vivido na história, no tempo, nos compromissos sociais e de uma maneira especial aos mais pobres, aos que mais precisam, aos mais idosos, aos mais doentes. Por exemplo, da avaliação que fizemos da coordenação pastoral, onde a diocese mais tem crescido é na pastoral penitenciária, junto do Estabelecimento Prisional de Izeda e aqui de Bragança. Outros setores que estavam mais adormecidos estão hoje mais visíveis, como a Pastoral do Turismo, a Pastoral Social, a Pastoral da Cultura, a Pastoral da Saúde, a Pastoral da Família. E agora uma atenção acrescida aos jovens e aos adolescentes, nesta fidelidade de alinhamento que o Papa Francisco está a impulsionar em toda a Igreja.

MB.: Terá de haver algum tipo de reorganização na diocese, fruto dos problemas demográficos que já apontou?
DJC.:
A reorganização que temos em curso procura responder ao que fazer em ordem a termos maior comunhão, maior consciência missionária e comunidades mais abertas à eclesialidade. Aquilo que estamos a procurar trilhar é menos paróquia e mais Igreja. Temos 326 paróquias num território enorme, mas com um povo que não vai além das 130 mil pessoas. Temos de reajustar as propostas e as próprias estruturas para esta mudança de paradigma. Temos também insistido na tecla de menos missas e melhor missa. Estamos com 60 padres no ativo, ao serviço das comunidades e vemos que aumenta a dificuldade numa pastoral clássica que recebemos.
 
Mas queremos comunicar o mesmo Evangelho, a mesma Eucaristia, as mesmas propostas que a Igreja tem por missão fazer, adequando-a à nossa realidade e, sobretudo, procurando uma saúde espiritual de todos, tanto dos pastores como dos fiéis. Consoante as possibilidades de mobilidade e do próprio território, encontrar estruturas e horários mais capazes de responder às inquietações de hoje para nos sentirmos uma verdadeira comunidade. Algumas paróquias já não têm os requisitos para serem uma comunidade de fiéis. São tão poucas as pessoas que vivem lá que não dá para experimentarem a plenitude e aquilo que se requer a uma paróquia.
 
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